Livro da coleção que Aveiro perdeu

A Fundação Mário Soares e Imprensa Nacional Casa da Moeda publicaram o livro “Enfim, a República”, 272 páginas de grande formato sobre a coleção de imagens e objetos dos finais da Monarquia e primeiros anos da República, sempre de temática republicana, que durante décadas o historiador António Pedro Vicente juntou.

A coleção pertence hoje à Fundação Mário Soares, mas esteve em Aveiro desde 2002. A aceitação formal dera-se, no entanto, em 1993, com o presidente Celso Santos.

António Pedro Vivente é filho de Arlindo Vicente, o advogado e pintor natural do Troviscal que se opôs a Salazar. Com a dádiva a Aveiro de um espólio excecional sobre a I República, pretendia homenagear o seu pai. A condição para a entrega gratuita era que o museu ficasse com o nome de Arlindo Vicente.

Com abertura diversas vezes anunciada e sucessivamente adiada, apesar das obras de remodelação, o Museu Arlindo Vicente (onde hoje é o Museu da Cidade, ao Rossio) passou pelas mãos de executivos autárquicos de diferentes cores políticas e acabou por não se concretizar. A coleção foi devolvida em 2006 pelo executivo de Élio Maia ao dono original, que, mais tarde a vendeu à Fundação Mário Soares.

É o próprio Mário Soares, que escreve no prefácio deste volume: “Por circunstâncias especiais, em que eu não vou entrar, falámos um dia e deu-me a conhecer, antes das Comemorações do Centenário da República, a sua imensa coleção, que a Fundação Mário Soares veio a adquirir (…)”. Estas “circunstâncias especiais” em que o antigo presidente da República não quis entrar são, sem dúvida, uma página negra na cultura aveirense dos anos recentes.

Aveiro deu-se ao luxo de perder, por razões nunca cabalmente esclarecidas da parte dos dirigentes autárquicos, uma coleção impar de milhares de objetos (de postais a cartazes, de pratos a moedas, de revistas aos projetos originais da bandeira nacional, de bustos a relógios…) dos últimos anos da Monarquia e primeiros da República. Podemos agora vê-la em papel e lamentar não a admirar ao vivo na cidade que se orgulha de ter feito congressos de oposição democrática.

J.P.F.