Questões Sociais 1. Como é natural, as eleições legislativas do dia 20 de Fevereiro foram objecto de vários comentários apresentados como evidências. Detenhamo-nos apenas em quatro: o Engº José Sócrates tem todas as condições para governar; as eleições foram ganhas pela “esquerda”; o resultado das eleições demonstrou que o Presidente da República agiu bem ao dissolver a Assembleia da República; o resultado eleitoral demonstra também uma forte rejeição do Governo PSD-CDS/PP. Ora a realidade não é bem assim. Com efeito:
2. O Engº José Sócrates só dispõe, praticamente, da maioria absoluta para governar. De resto: não dispõe de margem orçamental; depara com divisões no interior do seu partido; confronta-se com um país gravemente dividido e debilitado; vai enfrentar inúmeras carências e reivindicações muito superiores à capacidade de resposta; enfrenta notória falta de horizontes no país….
Quanto à vitória eleitoral, só o PS a alcançou, e não a “esquerda”, embora esta tenha subido significa-tivamente. Para se falar de vitória da “esquerda”, é necessário abstrair do “centro” – “centro-esquerda” e “centro-direita”.
3. É lisonjeira para o Presidente da República a afirmação de que os resultados eleitorais lhe deram razão. Acontece, porém, que tal decisão se baseou na Constituição da República, e não precisava da confirmação eleitoral. Por outro lado, só se poderá fazer um juízo político favorável a respeito da mesma decisão, se o novo Governo funcionar satisfatoriamente e se um futuro Presidente não utilizar, de maneira abusiva, o precedente da dissolução da Assembleia da República.
4.Finalmente, o problema da rejeição do Governo PSD-CDS/PP. Embora tenha ocorrido essa rejeição, como é evidente, não se pode esquecer o pluralismo dos eleitores que votaram no PS: uns votaram por convicção socialista; outros, por opção social-democrata pró-PS; outros pertencem ao número dos “flutuantes”, sem opção política definida….
Em suma: não há razão para se esperar que o PS governe à “esquerda”, ao “centro” ou à “direita”. É de esperar, sim, que governe, dignamente, de acordo com o seu programa e o seu ideário, cooperando com outras forças políticas e visando, firmemente, o bem comum.
