1. As camadas sociais intelectualizadas fazem gala em salientar a “má imagem do voluntariado social”. Associam-no à “caridadezinha” e ao assistencialismo.
Acha-se tão difundido e enraizado este preconceito, que é apresentado como realidade óbvia, sem necessidade de prova: basta afirmá-lo, e proclamá-lo, como estereótipo mental cristalizado.
O menosprezo e a contestação do voluntariado social parecem basear-se em três razões. São elas: o facto de este voluntariado não actuar nas causas dos problemas sociais; a conivência com os poderes dominantes que, supostamente, não contesta; e a falta de profissionalismo e de tecnicidade na sua actuação.
2. Tal menosprezo e contestação esquecem que o voluntariado social se ocupa de problemas que outras entidades, incluindo o Estado e os intelectuais, ignoram. Esquecem também que ele não dispõe de recursos financeiros e técnicos para uma actuação mais consistente.
No fundo, o menosprezo do voluntariado social acha-se associado ao menosprezo das pessoas pobres e excluídas a que ele ocorre; seria diferentes se o Estado e outras entidades, promotoras do menosprezo, desencadeassem actuações mais consistentes do que as do voluntariado. Cobardemente, a sociedade e o Estado contestam o voluntariado por não resolver os problemas que eles próprios deveriam assumir. Em boa verdade, o voluntariado – que, ao longo da sua existência multissecular, não optou pela via contestatária – é, em si mesmo, uma denúncia coerente da iniquidade social. Em muitos casos, até constitui o único meio de conhecimento de graves casos e problemas.
3. Deveria o voluntariado melhorar a sua imagem? – É perfeitamente admissível que sim, desde que isso não prejudique o compromisso e a identificação com as pessoas mais pobres e excluídas. No entanto, o pior que o voluntariado poderia fazer, a favor da sua boa imagem, seria exibir seus méritos na solução de problemas que, efectivamente, não se resolvem.
Não enverede, pois, o voluntariado pela fuga aos problemas, pelo disfarce e pela propaganda, que tanto agradam a largos sectores da opinião pública…
