Uma Memória e uma Esperança

Direitos Humanos Quero fazer, com a partilha deste mês, uma memória e deixar uma esperança. Começo pela memória.

No dia 27 de Agosto, o Brasil recorda a morte de uma das grandes figuras da Igreja – Dom Helder Câmara. Coincidentemente, a partir de 2006, lembrará o desaparecimento de outra figura imensa – Dom Luciano Mendes de Almeida.

Sobre Dom Helder muito se conhece, até na Europa, mas hoje gostaria de destacar a figura de Dom Luciano.

Dom Luciano foi secretário-geral da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) entre 1979 e 1987 e seu presidente de 87 a 94. Foi, também, membro da Pontifícia Comissão Justiça e Paz, desde 92, entre outros cargos que ocupou.

Mas Dom Luciano era, principalmente, um homem do povo. Gostava de caminhar pelas cidades, conversar com os “companheiros que moram nas ruas”, escutá-los nas suas amarguras, mas, sobretudo, partilhar esperanças. Companheiro dos excluídos, Dom Luciano estimulou, enquanto bispo e responsável pela CNBB, a “opção preferencial pelos pobres”. E a Igreja do Brasil, com ele, conseguiu ser (ainda) mais profética!

Foi exemplo de cidadania e de luta pela dignidade humana. Participava, em El Salvador, nas cerimónias de homenagem ao bispo-mártir Dom Óscar Romero, quando os mesmos poderes que assassinaram o seu colega de episcopado atiraram sobre os populares, matando dezenas de pessoas. Esse testemunho acutilou ainda mais a sua militância a favor dos Direitos Humanos, bem como o seu sentido de pertença à Pátria Grande – o continente latino-americano.

Aliás, Dom Luciano chegou a ser vice-presidente do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano), de 1995 a 1998. E aqui chego à segunda parte do meu propósito nesta partilha: exprimir uma esperança.

No mês de Maio do próximo ano, o Brasil, mais concretamente o Santuário Nacional de Nª Sª de Aparecida, irá sedear a V Conferência Episcopal Latino-Americana. Será o quinto encontro do episcopado latino-americano, depois do Rio, Medellín, Puebla e Santo Domingo.

Algumas dioceses estão a organizar acções que visam chamar a atenção da sociedade brasileira em geral, e dos católicos em particular, para o evento. Infelizmente, no resto da Igreja, pouco se informou sobre o encontro de bispos.

O tema, sabe-se, será “Discípulos e Missionários de Jesus Cristo, para que n’Ele os nossos povos tenham vida”. Fazendo fé nesta temática, a Conferência tem todas as condições para se tornar um encontro dinâmico e motivador de novos rumos para a Igreja, não só latino-americana, como mundial.

Da IV Conferência, realizada em Santo Domingo em 1992, muitos saíram com ideia de que teria sido mais um simpósio teológico, demasiado teórico, do que uma Conferência para abrir novos rumos de concretização do Reino de Deus na Terra.

Dom Luciano, grande entusiasta dos desafios libertadores de Medellín e Puebla, certamente faria todos os possíveis para que a Conferência de Aparecida se torne um marco evangelizador na América Latina do novo milénio. Fica, por isso, a esperança de que a Igreja no Brasil resgate a dívida para com aquele grande bispo e se empenhe, com mais afinco, na divulgação da V Conferência. Para que o encontro do episcopado latino-americano seja sentido como compromisso de todos os cristãos – e até de outros homens e mulheres de boa vontade.

Só assim a Conferência de Aparecida não correrá o risco de se tornar um olhar da Igreja Latino-Americana para si mesma, mas sim uma possibilidade do Evangelho de Cristo iluminar, efectivamente, a dura realidade em que vivem os povos da Pátria Grande – “latino-américa querida”.