Manuel Santos, 53 anos, gestor e empresário, iniciou no domingo passado o terceiro mandato à frente do Corpo Nacional de Escutas (CNE) na Região de Aveiro. Nesta entrevista, o chefe regional revela como deseja um escutismo de seriedade e alegria, alicerçado na comunhão com a Igreja, que conduza os jovens à verdadeira felicidade, e informa que a tão ansiada sede regional deverá avançar antes do final do ano. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.
CORREIO DO VOUGA – Como está o espírito escutista na Região de Aveiro actualmente?
MANUEL SANTOS – Percebo e sinto o escutismo como um movimento de crianças e jovens que vivem e crescem em dinâmicas de valores que os próprios assumem como compromissos orientadores de vida. Quando tudo isto acontece em pleno, o movimento acontece e cria envolvências de alegria, responsabilidade e solidariedade. E isto, felizmente, é o dia-a-dia dos escuteiros da Região de Aveiro [circunscrição escutista correspondente à Diocese de Aveiro]. Cada vez assistimos a um maior empenhamento e rigor dos nossos dirigentes e isto traduz-se também em felicidade para os mais novos. O escutismo é hoje uma marca séria na maioria das nossas comunidades e consegue criar a diferença pela afirmação dos valores que nos são mais queridos: delicadeza, carácter, serviço e o sentido de Deus que nos une na Igreja que nos acolhe. Temos algumas mas pequenas excepções onde nem tudo funciona como todos desejaríamos. Também para isso, a mão amiga mas exigente da Junta Regional quer indicar e trilhar os caminhos de verdade que hoje os nossos jovens nos exigem com todo o seu direito.
Inicia o seu terceiro mandato. Em jeito de balanço, como avalia os últimos três anos (segundo mandato)?
Nos últimos anos dez a vinte anos – em cuja condução dos destinos escutistas eu colaborei noutras funções que não a de chefe regional –, sempre temos sentido um crescer na qualidade. E isto deve-se a uma maior sintonia de valores apreendidos e assumidos pelas equipas regionais, pela maioria dos formadores e pela grande maioria dos chefes de agrupamento – são eles os fiéis condutores da forma de interpretar o escutismo nas suas comunidades.
O último mandato ficou marcado pelo acampamento regional (Acareg), realizado em 2009 nas acolhedoras terras de Vagos. Um acampamento, para além da grande festa da comunhão entre todos os escuteiros, comunidade que nos acolhe e familiares e amigos que nos visitam, é sempre o melhor espaço de avaliação para o trabalho desenvolvido. Por tudo o que aconteceu, verificamos que os nossos escuteiros são felizes, crescem no seu progresso e gostam mesmo muito do escutismo.
Outro ponto forte, que não tem apenas a ver com o Escutismo, foi a participação massiva no Dia da Igreja Diocesana de 2010. Graças a Deus que a nossa Diocese soube encontrar uma forma nova de nos envolver na comunhão que precisamos todos de construir em Igreja, quer para nós quer para o exterior, que precisa de ver nos cristãos sinais visíveis de alegria e esperança.
A fundação de um novo agrupamento do CNE em São Lourenço do Bairro foi e continua a ser um sinal de alegria e de juventude em Igreja na Bairrada profunda e genuína.
E quais foram os pontos fracos?
Também os temos. Não criámos mais agrupamentos. Embora dependa também de outras entidades e das estruturas da Igreja local, assumimos como culpa nossa o não sermos capazes de debelar alguns obstáculos que não permitem a centenas de crianças e jovens da nossa diocese conhecer e viver esta alegria de crescer em Jesus pelo escutismo em Igreja.
Não realizarmos o São Jorge [encontro anual no fim de Abril] foi outra falha. Não foi por uma questão casual, má vontade ou indisponibilidade para o serviço. Nada disto. Não fazemos as nossas actividades apenas por fazer, para cumprir planos ou meras festinhas de calendário. Todas as actividades têm de ter sempre o maior sentido pedagógico. Quando não existem condições da comunidade local que nos acolhe, do agrupamento ou da Igreja local, optamos por não realizar. Aconteceu ainda aquilo que considero mais preocupante. Embora focos isolados, assistimos àquilo a que poderei chamar uma falta de sintonia de valores em entidades que considero os guardiões dos mesmos. Um educador do CNE não pode, nunca, estar em situações dúbias perante a sociedade e muito menos perante a Igreja. Se assumimos em pleno o projecto de baptizados em Cristo, a nossa lei de escuteiro e os nossos princípios obrigam-nos a ser exemplo claro de vida. Se não formos esta fonte límpida para os jovens, corremos o perigo de mergulharmos no lodo falso da hipocrisia que já vai atolando algumas franjas da nossa sociedade. O escutismo tem tudo para não virar barcos para o lodaçal. Apesar de alguns “importantes” nos quererem induzir pelo caminho mais perto, não é por aí que vamos. E o nosso Bispo quer-nos por caminhos de vida e na água límpida da verdade.
Por último, o ponto fraco da burocracia e tecnocracia que envolveram o projecto da nossa sede. Faltou da parte das entidades envolvidas ou dos seus profissionais algum respeito pela forma voluntária e gratuita com que nos empenhamos nestes projectos para bem das próprias comunidades. Houve desgaste, um constante pedir de papéis, alguns repetidos, atrasos sucessivos que mais pareciam forçar ao desinteresse e abandono do projecto. Felizmente, mesmo ao terminar o mandato, ficou tudo aprovado pelas entidades competentes. Assim, quase poderíamos considerar um ponto forte do último mandato.
Para 2011-14, quais são os maiores objectivos?
Mais e melhor escutismo para um maior número de jovens. Este é será sempre o nosso objectivo primordial. Todo o resto é uma soma de outros objectivos que bem integrados numa estratégia solida contribuirão para a prossecução do principal objectivo. Assim, mais e melhor formação de adultos, a abertura de novos agrupamentos, o Acareg e a sede regional são aqueles objectivos mais visíveis e com maior peso no próximo triénio.
Voltando à sede regional, como está então o processo? Há data prevista para o início da construção? Quando vai custar?
Fruto da tenacidade da nossa “Patrulha da Sede”, cujo guia é o chefe Norberto Correia, conseguimos finalmente a aprovação do projecto. Não digo o número de anos envolvidos. É dramático este tipo de atrasos que a todos prejudica e desmotiva. Felizmente, não nos conseguiram desmotivar e já procuramos orçamentos em empreiteiros que queiram construir a sede. Vai ser construída entre o Mercado de Santiago e a Urbanização Vila Jovem, na zona que julgo denominada Santiago ou Eucalipto. Estamos a trabalhar para dar início às obras ainda este ano. Prevemos um custo que deve ultrapassar o meio milhão de euros e temos parte desse dinheiro. Apesar das dificuldades, saberemos encontrar em toda a região os apoios amigos para levar este edifício até à sua conclusão.
Será um fracasso desta chefia se em 2014 as obras não estiverem bem avançadas?
Sim, será um fracasso desta chefia, mas também de todos os que connosco trabalham de perto neste projecto. Mas até por tudo aquilo que eles fazem e porque dão sempre o seu melhor, o fracasso não vai acontecer. Não avanço datas para não cair em estratégias políticas que por vezes são duvidosas. E nós até já fomos eleitos! Nem tudo depende de nós, podem surgir problemas de implantação que gastam algum tempo, mas estamos preparados para avançar em tempos aceitáveis. Como diz o outro: fracasso é coisa que não nos assiste.
Acampamento regional. Onde e quanto vai ser?
O 18.º Acareg vai acontecer em 2014. Ainda não escolhemos o local, mas começaremos a estudar os possíveis e também esperamos a generosidade amiga e espontânea de algum município da nossa Região que nos queira receber da forma amiga e solidária como o município de Vagos nos soube acolher no último acampamento regional.
Na proposta de plano de acção, a Junta eleita afirmava que queria dotar o Campo de São Jacinto, agora sob a alçada da Região de Aveiro, de gestão profissional. O que se pretende em concreto? O campo é uma fonte de receitas ou de despesas para Aveiro?
Descobrimos no Campo de São Jacinto um potencial muito importante para o CNE, para a comunidade local e para a nossa região, designadamente o concelho de Aveiro. Temos milhares de jovens de todas as partes do mundo que vêm a São Jacinto e a Aveiro viver as suas actividades, mas também partilhar e conhecer muito da vida local. As nossas entidades responsáveis locais ainda não perceberam o potencial que isto pode significar para as cidades e vilas envolventes. Um escuteiro feliz partilha com outros escuteiros e com a sua família. E nós temos tanto para dar. Do mar, pela ria, às serras. Do peixe e marisco à vitela e ao leitão. E temos tudo isto num raio de duas dezenas de quilómetros. Cabe-nos a nós, como cidadãos responsáveis, sensibilizar as entidades para todo este potencial de partilha, de conhecimento, mas também de mercado, de que todos hoje precisamos. Até hoje, apesar de alguns esforços de comunicação, ainda pouco ou nada conseguimos. Da nossa parte, o Campo de São Jacinto já tem um orçamento interessante. Ao contrário de gestões anteriores, geram-se agora algumas mais-valias financeiras. Quando trabalhamos e nos apercebemos de todo este potencial quer humano quer económico temos de saber encontrar formas de gestão que assegurem maior rigor em tudo aquilo que fazemos. Esse rigor deverá resultar num maior valor que permita a gestão profissional e assim a integração de mais pessoas ao serviço no campo. Acredito que estamos em condições de fazer este estudo e arrancar para um projecto de maior qualidade e notoriedade para São Jacinto.
Quantos agrupamentos há actualmente? Quantos escuteiros na totalidade?
Temos hoje 44 agrupamentos e, como já referi nos nossos pontos fracos, não temos agrupamentos em formação. O CNE nesta Região de Aveiro e segundo as indicações dos últimos censos tem 2536 escuteiros e 550 dirigentes, perfazendo um efectivo de 3086 associados.
O CNE é um movimento juvenil, mas na proposta de plano de acção foca-se mais a formação de adultos, dirigentes. É aí que se joga a saúde do movimento?
Com toda a certeza. Apesar do Escutismo ser um “jogo” de jovens, o adulto é peça importante neste jogo. O adulto educador/evangelizador tem de ter uma carga que por si conduz as crianças e os jovens a projectos de felicidade. Tem de ser aquele que sem falar muito, na serenidade do seu exemplo, transmite mais do que aquilo que se transmite em horas de teorias insipidas. Hoje trabalhamos para uma geração de jovens do melhor que temos, inteligentes, generosos e amigos e, felizmente, cada vez mais bem formados em várias áreas e também na vertente académica. Eles, no escutismo, não precisam de “professores”, precisam de pessoas sérias, amigas e competentes. A seriedade e amizade, o adulto já as tem de ter e perceber. Costumo dizer que nós, no CNE, formamos, não transformamos. Quanto à competência e a capacidade pedagógica para perceber as novas metodologias e outras maneiras de partilhar este projecto de Baden-Powell, isso acontece e partilha-se com muito rigor nos vários cursos e jornadas de formação que o CNE oferece.
Para lema do triénio escolheram parte do Salmo 62. Pretendem reafirmar a matriz católica do escutismo? Porquê? Está em erosão?
Tudo na vida está sujeito a erosão. Até com a pedra mais preciosa, apesar da maior resistência, há formas de erosão que lhe ocultam o brilho. Hoje, os factores de erosão na nossa sociedade são muitos e se não existir um cuidado continuado na protecção e defesa daquilo que nos é querido e que se torna essência na construção da felicidade das pessoas, tudo pode deixar de brilhar. Hoje a cultura do “eu” e do imediato, o facilitismo, a ausência do pensar mais além, a “vergonha” ou a falta dela instalada em algumas cadeiras do “poder” e a cultura da irresponsabilidade afastam as pessoas do sentido da verdade. Hoje, para uma certa camada geracional, que não digo os jovens, é difícil falar de “Jesus” Homem Novo, desconcertante para todos estes gastos no seu destino fatalmente construído. Por isso o escutismo tem este dever em Igreja, devido à sua verticalidade que assume pela própria lei, de sempre perceber que no seu método tem como fim de pista a felicidade. E para nós, escuteiros católicos, a Felicidade é Deus. “Só Ele é o meu refúgio, a minha salvação, e a minha fortaleza”.
Também integrados na dinâmica do Plano da nossa Diocese, assumimos do Salmo 62: “Deus, a única esperança”.
Nestes tempos conturbados, o Escutismo em terras de Santa Joana Princesa vai ser, quer ser, um grito e um testemunho de esperança que traga os sérios e de boa vontade a um sentido de vida, se calhar não tão rico, nem esbanjador, porque como diz o nosso 9.º artigo da lei: “O escuta é sóbrio, económico e respeitador do bem alheio”. Mais despojados, vai ser mais fácil juntos encontrarmos a felicidade que perseguimos.
