Manuel Assunção, Reitor da UA: “A Universidade de Aveiro é as que tem taxas de empregabilidade maiores nos se

Manuel Assunção: “A aposta da descentralização, para ajudar a qualificar o tecido económico, é uma aposta ganha”
Manuel Assunção: “A aposta da descentralização, para ajudar a qualificar o tecido económico, é uma aposta ganha”

Manuel Assunção, reitor da Universidade de Aveiro, cumpre o segundo e último mandato. A instituição, que engloba ensino politécnico em Águeda e Oliveira de Azeméis, estabilizou nas licenciaturas e cresceu em doutoramentos. Entrevista conduzida por Júlio Almeida.

 

CORREIO DO VOUGA – O que é a atual realidade humana da Universidade de Aveiro (UA), entre alunos, docentes e funcionários?
MANUEL ASSUNÇÃO – São 14.500 alunos, 1100 docentes e investigadores, 750 funcionários, cerca de 300 bolseiros pós-doutoramento. 110 milhões de euros de orçamento anual. É a nossa fotografia muito rápida. Incluímos o campus de Santiago, as instalações de Águeda e em Oliveira de Azeméis.

 

Qual tem sido a evolução ao longo dos anos?
Temos uma certa estabilização de facto nas licenciaturas, algum crescimento nos doutoramentos e decréscimo nos alunos do segundo ciclo. Depois de uma subida bastante grande, não podemos esquecer que partimos do zero há 40 anos.

 

A UA promove-se hoje muito fora do campus, junto do secundário por exemplo, isso reflete a necessidade de atrair alunos?
Sim, obviamente que existe essa necessidade. Mas acima de tudo também fazemos esse marketing para ajudar a melhor decidirem o seu futuro e com a mensagem de que é importante continuar a estudar. Insiste-se muito em Portugal que há excesso de vagas face à procura e esquece-se que o número de licenciados ainda está abaixo da média europeia, temos de continuar a sensibilizar, nomeadamente os pais, para que os filhos prossigam os estudos. Principalmente nas camadas socialmente menos favorecidas, é fundamental. Quem não é filho de alguém que não estudou tem mais tendência a não chegar à licenciatura. Sabemos hoje que a captação de estudantes para licenciaturas é muito local. Os estudantes tendem, por várias razões, sociais e económicas, a ficar mais próximos de casa.

 

Como é que a universidade gere os cursos que precisam de alunos com menos candidatos?
Não temos grandes quebras. Existem alguns fenómenos nacionais, da engenheira civil por exemplo. Mas fazemos uma afinação de vagas anuais. A Universidade de Aveiro é das que tem taxas de empregabilidade maiores nos seus licenciados. Estamos no grupo da frente. Isso enche-nos de satisfação, dando sentido ao que fazemos.
Vivemos num quadro legal em que as instituições não podem abrir mais vagas do que no ano anterior. Há uma gestão muito cuidadosa desta realidade, de transferir vagas, atendendo à procura e empregabilidade. Isso é um factor que nos leva a ter mais alunos.

 

Os estudantes de cursos, de ensino de professores, em excesso, que foram reconvertidos para tradução, por exemplo, com procura no mercado.
Estamos a fazer um esforço grande na oferta de pós-graduação, em particular de mestrados, com cursos que possam ser mais atrativos, com perfil mais necessário ao mercado de trabalho.

 

O campus é cada vez mais internacional, pelos alunos que vão chegando?
Infelizmente, por razões económicas, os que chegam são menos dos que os que partem. O número de alunos de Eramus, de mobilidade, por um ou dois semestres, cresce muito mais mas em relação aos que chegam. Temos crescido mais no segundo grupo, mais importante, dos alunos que chegam para ser alunos da universidade. Englobando professores e investigadores, é um grupo muito significativo, já ronda os 11% da comunidade académica, é interessante, atendendo a que Lisboa e Porto têm maior poder.

 

Nesta conjuntura difícil, existem reflexos na cobrança de propinas ou abandono escolar?
Não, as coisas estão relativamente estabilizadas. Existe abandono. Um caso é sempre preocupante, principalmente para quem é afetado. Mas não tem havido nada que se possa dizer, pelo contrário, que estamos pior do que há dois ou três anos. Mas preocupa-nos. Temos medidas de apoio há muito tempo. Temos um fundo que tem receitas para alunos carenciados. Essa política tem sido intensificada, na alimentação, alojamento e mérito social. Depois, temos uma particular incidência junto dos alunos que ficam na fronteira das regras para beneficiar de bolsas. Já não estão dentro dos critérios, mas estão fragilizados porque ficaram muito perto. São centenas de milhar de euros que gastamos com estes alunos. Não queremos que deixem de estudar por dificuldades económicas. Isso acontece por vezes porque não identificamos a tempo, nem os colegas despistam. Não nos pedem ajuda.

 

E o fenómeno do trabalhador estudante?
Penso que não tem merecido evoluções significativas.

 

A saída de Alexandre Soares dos Santos da presidência do Conselho Geral da Universidade de Aveiro refletiu dificuldades de coabitação entre pessoas das empresas e quem está nas universidades?
Não. Agora é evidente que são mundos que precisam de se aproximar mais, colher ensinamentos das duas partes. O presidente Alexandre Soares dos Santos instalou o novo modelo de governo e gestão, que trouxe pela primeira vez pessoas externas, para, entre outras funções, eleger o reitor e acompanhar a definição de estratégica. Fê-lo de forma equilibrada e exemplar. Não houve tensão entre as culturas empresariais e académicas. Foi humilde a aprender essas diferenças. O consulado foi exemplar.

 

A Universidade de Aveiro tem um impacto brutal na cidade. A relação é melhor hoje em dia?
Perdeu-se demasiado tempo na cidade a perceber-se a importância da universidade. Temos de olhar para a frente. Existem sinais muito positivos. A interpenetração é uma realidade tão grande que resulta disso uma identificação das pessoas cada vez maior. As lideranças são sempre importantes e alguns sinais também, por exemplo trazer as festas académicas para a cidade. Com algumas perturbações normais. O fundamental é valorizar esta relação. A política de alojamento na cidade ajuda a maior integração.

 
O ciclo de entrevistas “As Vozes da Ria” é uma parceria do semanário Correio do Vouga, CanalCentral.pt, Rádio Voz da Ria (90.2FM) e NotíciasdeAveiro.pt.

 

 

 

“11 por cento das receitas UA vem de serviços prestados às empresas, transferência
de tecnologia e patentes. É significativo”

 

CORREIO DO VOUGA – A Universidade está com a Escola Superior de Gestão, em Águeda, e o polo de Aveiro Norte, em Oliveira de Azeméis.
MANUEL ASSUNÇÃO -Vamos mantendo e acho que se justifica plenamente. Queremos ser elementos influentes em redes. É a nossa preocupação mais global.
São várias as redes: as redes de consórcios com outras universidades em cursos de pós-graduação, já são mais de três dezenas; redes internacionais para investigação, que são determinantes; redes com países oficiais de língua portuguesa como Timor e Cabo Verde.
Na região de Aveiro, as escolas politécnicas protagonizam licenciaturas e mestrados. Protagonizaram os cursos especialização tecnológica e agora os cursos de ensino superior curto profissionalizante. Criaram redes com as empresas em volta das três cidades, da nossa região. Falamos mais de mil estágios que existem por ano, com muitas relações que se estabelecem. É riquíssimo. A aposta desta descentralização com o propósito de ajudar a qualificar o tecido económico foi uma aposta ganha.

 

Como vê o desempenho da Escola Superior de Saúde ?
As saídas profissionais têm sido muito boas. O curso de enfermagem tem médias muito altas. Fisioterapia é das melhores ofertas do país. Diz-me muito que os estudantes portugueses terminam os cursos e vão lá para fora. A nossa função é qualificar, não a alternativa, que seria não qualificar. O que há a fazer é o país crescer para absorver mais finalistas. Mas vivemos num mundo cada vez mais global. Mais gente a ir para fora. O grande desafio é existir um equilíbrio. Pior seria não arranjar emprego. Os alunos que saem do país, pelo que vemos são contratados. Isso reconhece a formação da Universidade de Aveiro.

 
A medicina é uma “pedra no sapato”?
Estamos empenhados na saúde, como noutras áreas, em ter cada vez mais impacto. É das mais transversais, das que fazemos mais investigação, criámos uma unidade própria, de biomedicina. Temos um conjunto de meios e dinâmicas para que seja cada vez mais importante na universidade e ajude o país. Criámos um doutoramento em consórcio com a Universidade Nova de Lisboa, que será muito importante na qualificação, que utiliza várias valências, do diagnóstico ao tratamento. Estamos nesse desafio. As apostas estratégicas têm de ser modeladas à medida das competências, das oportunidades e parcerias. Continuaremos atentos.

 

A UA incentiva muito a transferência da investigação?
É um desafio, mas onde se nota uma evolução grande. 11 por cento das receitas UA vem de serviços prestados às empresas, transferência de tecnologia e patentes. É significativo. A incubadora tem mais de 100 empregos diretos. Faturou quase 5 milhões de euros em 2014. Temos as plataformas tecnológicas de competências comuns. São nove, que juntam as empresas. Temos crescido com estas dinâmicas e ferramentas. Estamos no bom caminho.
Não nos esgotamos na região, claro. É uma grande diversidade de setores, esperando chegar à investigação e desenvolvimento em consórcio. Penso que o novo quadro comunitário vai ajudar muito nessa vertente.
A investigação é um grande desafio para as universidades, para além de qualificar as pessoas. É a pedra basilar do edifício. Sem a qual não há boas universidades. Uma parte da investigação, a aplicada, mais pura, é feita sem visar nada no curto prazo. Somos reconhecidos por isso pelos nossos pares internacionais. Mas também por sermos úteis às empresas.
A fusão de unidades de investigação das universidades da região Centro está em curso envolvendo Aveiro?
O que nós preparamos é um consórcio entre as universidades. Tem muito trabalho prévio. Existem sete cursos de pós-graduação em conjunto. Temos interesses e iniciativas que podem ser comuns. Podemos fazer muito juntos. Desde logo para atrair estudantes, mas também na compra e partilha de equipamentos.

 

Em termos de desenvolvimento físico, quais as prioridades do campus e fora? O Parque de Ciência e Inovação vai mostrar obra?
A universidade é muito conhecida pelo seu campus. Vai nascer o edifício complementar ao edifício de Comunicação e Arte, que é das áreas que mais tem crescido em termos de alunos.
As preocupações nossas passam ainda por acabar o Ecomare, em Ílhavo [Gafanha da Nazaré].
A manutenção é outra prioridade. No financiamento das universidades, Aveiro tem optado por manter o quadro de pessoal, cortando em outras despesas. Mas há limites. Não se pode poupar sempre na manutenção do equipamento que precisa de ser recuperado. Os edifícios degradam-se. Temos de encontrar investimento para ter o campus em bom estado.

 

Algo de novo?
À partida serão residências, nomeadamente para estrangeiros. E já somos a segunda universidade em termos de oferta de camas. Não havendo investimento específico, teremos de encontrar alternativas.
Quanto ao Parque de Ciência e Inovação, os acessos estão a andar, os primeiros edifícios começaram em breve.