Aveirenses Esquecidos O aveirense Manuel de Matos Vinagre, conhecido no mundo das artes plásticas e da publicidade por Manuel Bandarra, alcançou um lugar cimeiro no competitivo mundo da publicidade no Brasil, país onde se fixou no ano de 1958.
Irmão dos artistas plásticos Jeremias e Hélder Bandarra, Manuel Bandarra nasceu em Aveiro, no dia 20 de Maio de 1931, e faleceu em S. Paulo (Brasil), no dia 16 de Abril de 1992, cidade onde residia e tinha a sua própria agência de publicidade.
Depois de frequentar o ensino primário na Escola Primária da Glória, Manuel Bandarra passou para a Escola Comercial e Industrial Fernando Caldeira, no curso industrial, onde teve como mestre o pintor Porfírio de Abreu. Devido à sua capacidade e qualidade artística, e apesar de não ter frequentado a Universidade, com 18 anos de idade já integrava, por convite, o corpo docente do Colégio de Sangalhos, onde dava aulas de desenho e de trabalhos manuais. Uma das suas alunas foi Zita Seabra. Foi nesse colégio que concebeu as primeiras esculturas, incluindo o busto do antigo director do Hospital de Sangalhos, uma escultura que se encontra na Misericórdia. Fez ainda o busto do pai (que está na campa do seu pai, no Cemitério Sul) e um relevo que existia no antigo Magistério Primário e que hoje está nos armazéns gerais da autarquia aveirense.
Ainda em Aveiro, Manuel Bandarra estagiou nas fábricas de porcelana “Aleluia” e “Artibus”, as duas situadas bem perto da oficina de carpintaria que o seu pai possuía junto ao Canal do Cojo. Por essa altura, construiu uma máquina de filmar.
O início da sua carreira publicitária aconteceu no Porto, cidade para onde foi trabalhar, e onde ganhou o seu primeiro prémio em cinema, enquanto a esposa dava aulas numa escola primária em Espinho. Manuel Bandarra prosseguiu a sua actividade publicitária em Lisboa, na empresa alemã Zeiger, na qual trabalhou com o poeta José Carlos Ary dos Santos.
Em 1958, e como a sua esposa tinha familiares no Brasil, Manuel Bandarra fixou residência em S. Paulo.
Um criador por excelência
Jeremias Bandarra recorda que os primeiros tempos do irmão no Brasil não foram fáceis, uma vez que as empresas publicitárias aí instaladas já tinham os seus quadros preenchidos. Por isso, começou numa agência pequena, como desenhador. Porém, “como o meu irmão tinha muita habilidade para fotografia e para cinema, e desenhava muito bem e rápido, o seu talento foi reconhecido imediatamente, e ao fim de meio ano já era director artístico dessa agência”, relata. Foi aí que ganhou o seu primeiro grande prémio no mais credenciado concurso de propaganda (como então se designavaesta actividade) no Brasil, facto que catapultou o seu nome para o mundo da publicidade e motivou a sua contratação pela Thompson, uma das maiores agências americanas a operar no Brasil, na qual entrou no restrito grupo dos criadores, chegando a director artístico.
Jeremias Bandarra recorda que o seu irmão teve a ousadia de desafiar uma modelo e artista da TV Globo, que na altura era casada com o Ministro da Cultura, a posar para uma campanha publicitária de jóias. Foi a primeira vez que uma campanha ocupou a capa da revista “Manchete”. O sucesso foi extraordinário. Mais tarde, Manuel Bandarra criou a sua própria empresa de publicidade.
As duas exposições que Manuel Bandarra fez em Portugal saldaram-se pela venda de todas as suas obras, o mesmo acontecendo com as obras que expôs nas duas mostras “Portugal-Brasil”, uma em cada um dos países. Duas das suas obras expostas em Lisboa foram adquiridas pelo Banco Totta. No Brasil, o sucesso da sua pintura foi igualmente notório. Há obras suas em diversas instituições e locais públicos.
O sucesso das vendas e o facto de Manuel Bandarra dar muitos dos seus trabalhos a pessoas amigas fazem com que a família desconheça o paradeiro da maioria das suas obras, ainda que, como dizia, “não deve haver avenida em S. Paulo que não tenha uma coisa minha”.
No mundo das artes, e para além da pintura e do desenho, este aveirense deixou obra também na escultura, na cerâmica, na madeira e no relevo. A escrita, o cinema e o teatro foram outras áreas em que esteve activo.
Já no Brasil, Manuel Bandarra interessou-se por outras áreas do saber, entre as quais a hipnose e a parapsicologia, nas quais obteve diplomas de formação. A sua biblioteca era bastante boa e diversificada.
Numa entrevista publicada no dia 15 de Novembro de 1991, no jornal “O Comércio do Porto”, feita por Daniel Rodrigues, a propósito da exposição realizada em Aveiro, Manuel Bandarra, referindo-se a si mesmo, disse: “Sou purista, da forma, da luz (…) o meu trabalho é de altíssima elaboração e alta técnica”. Jeremias Bandarra define-o com “um desenhador muito bom”, de que são exemplos as pinturas que nessa altura expôs em Aveiro, embora “concorresse sempre com coisas abstractas”. O irmão considera-o “um ser humano absolutamente fora de série, com uma formação fantástica”. “Era um criativo extraordinário”.
Cardoso Ferreira
Coleccionador de prémios artísticos
Manuel Bandarra foi um autêntico “coleccionador” de prémios artísticos, “colecção” que começou a fazer ainda muito novo, enquanto estudante na Escola Comercial e Industrial Fernando Caldeira, em Aveiro. Depois desses primeiros prémios, dezenas de outros foram enchendo o seu “portfolio”, e onde se contam medalhas de ouro, de prata e de bronze, primeiros, segundos e terceiros prémios, e menções honrosas, distinções obtidas em concursos de artes plásticas, de criatividade publicitária e até de cinema, realizados em Portugal e no Brasil, incluindo uma medalha de ouro no prémio Armando Morais Sarmento, o principal prémio brasileiro de publicidade.
O concorrido e competitivo mundo da publicidade, especialmente num país como o Brasil, onde trabalham alguns dos melhores publicitários do mundo, não deixava muito tempo a Manuel Bandarra para se dedicar às artes plásticas, em especial à pintura. Mesmo assim, realizou várias exposições no Brasil e também em Aveiro, e participou em algumas mostras colectivas. A sua qualidade foi reconhecida pela crítica, motivo pelo que foi convidado para integrar o júri da Bienal de S. Paulo e de outros eventos artísticos de renome, sendo referenciado por inúmeros críticos de arte.
Aveirense amigo de Óscar Niemeyer
Manuel Bandarra atingiu um elevado patamar no mundo artístico da maior cidade brasileira, facto que se repercutiu no laço de amizades pessoais que foi criando e que o levou a privar com alguns dos maiores nomes das artes do Brasil, com destaque para o arquitecto Óscar Niemeyer, criador da cidade de Brasília e que hoje, aos 103 anos de idade, continua um criador activo.
Este aveirense ilustre no Brasil, mas praticamente esquecido na sua terra, apesar de trabalhar numa área em que a concorrência é feroz, como é a publicidade, soube ensinar e ajudar os outros, pelo que ainda hoje é recordado com admiração por criativos como Juvenal (Rodrigues da Silva) Ramos, natural de Viana do Castelo, que nos finais da década de 1960 criou o famoso símbolo da Editora Abril (a Árvore). Numa entrevista recente, referindo-se aos seus primeiros tempos como publicista no Brasil, disse que nas décadas de 1960 e1970 o seu trabalho “começou a ser reconhecido por grandes nomes da propaganda da época”, por “gente como o director de arte Manuel Bandarra, por exemplo”, que lhe recomendou que apostasse na criatividade e deixasse de ser “tão técnico”. “Trabalhei com ele e com outros profissionais famosos – caso do Sergio Graciotti, da MPM”, afirmou com orgulho Juvenal Ramos.
