Catequeses Quaresmais Irmão de sangue. Um dia, D. Hélder da Câmara, bispo brasileiro amigo dos pobres, deu com um homem em condições degradantes, vestiu-o, arranjou-o e telefonou a um amigo empresário:
– Vou enviar-lhe o meu irmão. Dê-lhe trabalho.
– Com certeza, Sr. Bispo – disse o empresário.
O homem lá foi à empresa e o patrão ficou admirado com tal sujeito. Resolve telefonar a D. Hélder.
– Mas é mesmo o seu irmão?
– Sim, é meu irmão.
– …
Perante o silêncio do empresário, o bispo acrescenta:
– Meu irmão de sangue.
Como o empresário, estupefacto, permanecia em silêncio, D. Hélder conclui:
– Meu irmão no sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Foi por mim. A história contada pelo Bispo de Aveiro na última catequese quaresmal deste ano, na sexta-feira passada, ilustra o poder da Eucaristia e os limites da participação inconsequente. Poder, porque “cada participação na Eucaristia torna necessariamente mais viva e actuante a comunhão com Jesus Cristo e com os irmãos”. E, nesse caso, “a vida adquire outro sentido: permanente gratidão e permanente compromisso apostólico”, escreve D. António Marcelino. Limite, porque muitas vezes a participação na Eucaristia é vivida como devoção pessoal, sem consequências para a vida depois da celebração.
A missa tem sempre uma dimensão comunitária, “mesmo quando o padre celebra sozinho”, disse D. António. “Significa e antecipa o dom de Deus para cada um de nós até ao fim dos tempos”, acrescentou o bispo de Aveiro, sublinhando este “cada um de nós”. Como várias pessoas sublinharam nos momentos de partilha que D. António proporciona aos participantes, é difícil aceitar este “morreu de paixão por cada um de nós” ou “por mim”. Se se aceita isto, a missa transforma mesmo quem nela participa. E da missa nasce a missão (“da missa à missão”, “feliz expressão de João Paulo II”).
Ide em paz. O tema desta última catequese foi “Em comunhão com Jesus Cristo e com os irmãos, a Vida tem outro sentido”.
Dos ouvintes, uma senhora partilhou: “O problema é que muitas vezes vamos à missa, mas não há encontro. O encontro com Cristo é que é importante. Vamos à eucaristia, mas não nos encontramos com Cristo”. Claro que, assim, o apelo sempre urgente e actual de Paulo, “Ai de mim se não evangelizar”, perde força. E as palavras finais, “ide em paz”, são alívio em vez de serem um “mandato que impele o cristão para o dever de propagação do Evangelho e de animação cristã da sociedade”, conforme escreve na folha distribuída aos participantes o Bispo de Aveiro. Este “mandato” o Bispo de Aveiro formulou-se de várias formas: “Quem come o Corpo do Senhor, come as preocupações do Senhor”. Ou “Há inter-relação entre banquete e anúncio”. Ou ainda: “O que tu fores depois da missa mostra o valor da missa para a tua vida”.
Voltar à rotina? No final da catequese, D. António referiu algumas características do compromisso marcado pelo sentido da Eucaristia, na sequência da carta papal para este Ano (“Fica connosco, Senhor”): eterno reconhecimento ao Pai pela oferta de Jesus Cristo à humanidade; gratidão por tudo o que temos e somos; força interior para ostentarmos os sinais da nossa fé; solidariedade em favor dos mais pobres de pão, trabalho, amor, saúde…; tomar como próprias as causas da justiça e da verdade no ambiente em que nos encontramos; construir a comunhão fraterna na família, no trabalho na comunidade, pela prática do lava-pés (serviço).
As catequeses terminaram, mas fica a percepção de que há muito a fazer, para melhor vivência do sacramento central dos cristãos. Por isso, D. António escreve, a concluir: “Resta que cada um de nós faça o seu exame de consciência sobre mais esta ajuda [o Ano Eucarístico] e se disponha a não deixar que a Eucaristia seja uma rotina, mas sempre uma graça vivificadora da sua vida e da sua missão da Igreja e no mundo”.
J.P.F.
