Massacre de Santa Cruz evocado no Centro Universitário

Celebração presidida pelo Bispo de Aveiro, com a participação de uma centena de timorenses, pretendeu reparar silêncios e esquecimentos.

Passaram 20 anos sobre o Massacre de Santa Cruz, em Díli, Timor Leste. Por isso, uma centena de timorenses reuniu-se, no sábado, no CUFC, Aveiro, para prestar homenagem aos seus familiares e conterrâneos brutalmente assassinados em 12 de Novembro de 1991. A Eucaristia, presidida por D. António Francisco, Bispo de Aveiro, contou também com a presença de vários professores e amigos portugueses.

D. António Francisco relembrou o acontecimento de Santa Cruz que provocou em Portugal grande comoção, altura em que o actual bispo de Aveiro era o responsável pela Pastoral Universitária no Pólo de Lamego. “A Sé de Lamego foi pequena” para todos os que, dias depois, se concentraram numa vigília de oração pelo povo irmão de Timor. O prelado aveirense pediu aos presentes que sentissem a Igreja de Aveiro como a mesma de que fazem parte os timorenses, evocando os bispos daquele país, D. Ximenes Belo, D. Basílio, D. Ricardo e D. Alberto.

No dia em que se celebra a memória de S. Josafat, bispo ucraniano que sofreu o martírio pela fé, na integridade das suas convicções, D. António Francisco evocou na homilia os acontecimentos que “mudaram o rumo da história do povo timorense e abriram, entre gritos de dor e imagens de incontido sofrimento, um caminho de indignação universal, que fez levantar a voz da humanidade por inteiro a pedir a liberdade para um povo oprimido.” E continuou: “Naquele momento, nasceu no coração universal da humanidade, mesmo para os mais cépticos, uma inabalável esperança de liberdade como condição necessária para a sobrevivência digna de um povo que há muito sonhava pela independência, vivida sem jugos nem opressões. (…) Vinte anos depois, ao lembrar [as mais de duzentas pessoas massacradas em Santa Cruz], queremos também reparar os nossos silêncios cúmplices e os nossos esquecimentos daqueles que sofrem”. O Bispo de Aveiro denunciou, ainda, o ódio, a violência e “a dignidade humana magoada e beliscada nos seus mais sagrados direitos e nas mais justas aspirações”. “Hoje, há povos a sofrer em várias partes do mundo e há contínuos massacres da esperança humana que aspira por um mundo justo e fraterno e por um viver irmão entre todos nós. As ditaduras económicas com os excessos que todas as ditaduras transportam e com as ameaças do futuro humano, que, em si mesmas, sempre geraram, estão mais perto de nós do que imaginamos. E, quando uma ditadura nos ameaça, seja de que teor for, é a própria vida que está em perigo”. Numa alusão a D. Ximenes Belo, o prelado aveirense incentivou: “Não esqueçamos que o Prémio Nobel da Paz dado ao povo timorense passa também pela acção de um bispo católico e da Igreja em Timor.”

Poesia e memórias

Após a Eucaristia, a emoção dominou o grupo ali reunido, que declamou alguns poemas de autores timorenses e portugueses. Gregório Araújo, antigo resistente timorense, agora a terminar o mestrado em Ambiente na Universidade de Aveiro, comoveu os presentes quando tomou a palavra e, com grande contenção, lembrou os seus colegas que pereceram no massacre de Santa Cruz, bem como os estudantes que, como ele, foram presos em Jacarta, Indonésia, por se manifestarem em frente à delegação das Nações Unidas, dias depois do incidente brutal no cemitério, em Timor Leste.

Teresa Correia