Efeméride O Padre Mateus Ricci foi um sacerdote jesuíta, filósofo, cartógrafo, astrónomo e matemático. Nasceu em Macerata, Itália, a 6 de Outubro de 1552 e faleceu em Pequim, China, a 11 de Maio de 1610. É conhecido pela sua actividade missionária na China da dinastia Ming, onde era tratado por “Lì Madòu”. Atribui-se-lhe a introdução do cristianismo na China. Morreu há 400 anos
1.Recebeu a sua primeira formação na cidade natal, partindo depois para Roma onde estudou Humanidades, Leis e Ciências. A 15 de Agosto de 1571, ingressou na Companhia de Jesus. Em Florença estudou Humanidades e, no Colégio Romano (antecessor da Universidade Gregoriana), estudou Filosofia e Teologia, ao e, ao mesmo tempo, Astronomia, Cosmologia e Matemáticas. Aqui, teve como professor o famoso Padre Cristóvão Clavius, que veio a ser mais tarde professor no Colégio de Santo Antão, em Lisboa, onde hoje está implantado o Hospital de São José.
Aconselhado pelo Padre Alexandre Valignano, Visitador da Companhia de Jesus nas missões da Índia e do Japão, partiu para Lisboa (1577), onde continuou os estudos de Teologia na Universidade de Coimbra, durante quase um ano.
A 24 de Março de 1578, partiu da capital portuguesa para Goa. Após completar os estudos de Teologia em Goa, ordenou-se sacerdote a 26 de Julho de 1580. E, durante quase dois anos, foi professor em Goa e em Cochim. A 7 de Agosto de 1582, chegou a Macau, com o fim de entrar na China, sob a dinastia Ming.
2. A entrada de um ocidental na China não era nada facilitada, pois eram tomados como feiticeiros e intrusos de índole perigosa. A cultura chinesa considerava-se a mais elevada do mundo, não tendo que aprender nada de ninguém, antes pelo contrário. Os primeiros cristãos entrados na China, no séc. VII, foram missionários nestorianos, que ali deixaram alguns sinais. Há notícias de que, também nos sécs. XIII e XIV, se dirigiram à China monges diversos, que terão originado pequenas comunidades dispersas, que se dissolveram ao longo dos anos. E mais nada.
3. O primeiro missionário a entrar na China, secundando o “sonho” irrealizado de São Francisco Xavier (1552), foi o jesuíta português Melchior Nunes Barreto, natural do Porto, que conseguiu estar duas vezes em Cantão, um mês de cada vez (1555), nunca dando a entender que ia por fins religiosos e, muito menos, deixando perceber que ele próprio era sacerdote. Se isso fosse conhecido, seria maltratado e expulso de imediato.
O dominicano Frei Gaspar da Cruz foi também um mês até Cantão. Em 1568, 1575, 1579 e 1582, vários jesuítas, agostinhos e franciscanos foram tentando ir à China, tendo em vista assistir já alguns cristãos; mas acabaram sempre por ser expulsos ou perseguidos.
4. No Verão de 1583, foi a vez do Padre Ricci penetrar no Império Celeste, juntamente com o Padre Miguel Ruggieri, italiano, ambos treinados com as novas ideias de missionar através da amizade e da sabedoria, inspiradas pelo Padre Valignano. Dirigiram-se à residência do vice-rei de Kuangtong e Kuangsi, na região de Cantão, onde o padre Ruggieri já tinha estado em 1581 e 1582. Apresentam-se como cientistas, astrónomos e matemáticos ocidentais. A 10 de Setembro, recebem autorização para permanecer em Chão k’ing. Em Novembro de 1584, inauguraram a primeira casa da missão na China, com a presença do padre Francisco Cabral, reitor do Colégio de Macau.
Ao longo dos tempos, o Padre Ricci fez algumas modificações no seu modo de vestir e nas atitudes dos missionários, ensinando astronomia e explicando os elementos fundamentais da cosmologia – o que o fazia muito admirado pelos sábios chineses – com o fim de melhorar as relações de confiança e de amizade com eles e obter depois bons resultados nas missões. Falava bem o mandarim, vestia-se à chinesa, observando os ritos e costumes chineses que não colidissem com o dogma católico, ganhando assim a confiança e a amizade de todos.
5. Depois de estar seguro da validade do seu apostolado, decidiu dirigir-se a Pequim, a capital, para poder dali irradiar o cristianismo. Chegou a 7 de Setembro de 1595.
Três anos depois, foi para Nanquim, onde foi tratado com grande cortesia pelo vice-rei. Aí instaurou uma nova comunidade cristã. De Nanquim, saíram alguns dos grandes mandarins cristãos, como Paulo Siu, Inácio Keui-taisou, Paulo-Chiu, entre outros.
De Macau, chegaram entretanto reforços para a missão de Ricci, com presentes para o imperador, que se sentia muito honrado com eles (relógios de corda, espelhos côncavos, etc.). Os fiéis de Nanquim ficaram entregues ao padre João Rocha. Pela terceira vez, Ricci partiu para Pequim, agora com o padre Diogo de Pantoja.
Chegaram à corte imperial chinesa, a 24 de Janeiro de 1601. O Imperador Manlik ficou maravilhado com os presentes que os missionários levaram. Concedeu licença para fundarem uma missão em Pequim, tal como já tinha sido feito em Cantão e Chincheu. Mateus Ricci captou a simpatia do Imperador com os seus livros, o Livro das 25 Palavras e sobretudo o Tien-Chush’ei (famosa obra prima de Metafísica).
6. Por ter estudado o mandarim, os costumes e a cultura chinesa em Macau, durante anos, o jesuíta ganhou grande prestígio junto às classes cultas da China, a ponto de ser apresentado à corte Imperial. Era um homem culto e carismático, e encantou a corte imperial com a sua bondade, os seus conhecimentos e a sua fé.
Demonstrou aos chineses que a terra era redonda, pintou o mapa-mundi com a China no centro do mundo, confeccionou os primeiros planisférios em língua chinesa, construiu relógios mecânicos e traduziu pela primeira vez obras ocidentais para o mandarim, como os seis primeiros livros dos Elementos, de Euclides. Foi o autor do primeiro trabalho sinológico da história: um pequeno dicionário português-chinês. São também importantes os escritos dirigidos aos ocidentais, como as suas “Cartas”. Para além disso, escreveu mais doze obras, ainda hoje conhecidas.
7. Ricci morreu com 58 anos incompletos, a 11 de Maio de 1610 (faz agora 400 anos). Depois de fundar cinco residências, de baptizar mais de 700 fiéis e de encarnar a metodologia jesuítica da missionação, tendo em conta os costumes, a língua e os preceitos religiosos dos lugares onde actuavam. Conseguiu, para além de todo esse labor, evangelizar e arranjar ainda tempo para escrever e viajar no Império do Meio.
Recebeu o mais alto sinal de reconhecimento concedido a um estrangeiro na China: o privilégio imperial de ser sepultado na capital do país. Nenhum estrangeiro tinha merecido dos chineses um tal gesto até então.
8. Sobre Mateus Ricci, escreveu recentemente (2009) o bispo de Macerata e presidente da Comissão das Comunicações Sociais da Conferência Episcopal Italiana: “O Padre Ricci é um gigante da cultura e da fé. Dotado de extraordinários dotes intelectuais, mostrou-se verdadeiro génio da inculturação, por meio da qual abriu o caminho ao diálogo entre ocidente e oriente e para a evangelização da China”.
9. No passado mês de Dezembro (2009), o Santo Padre Bento XVI acedeu ao pedido de que fosse retomada a sua Causa de Canonização.
João Caniço, S.J.
