Mil voluntários abrem aos catorze mil detidos as grades da esperança e humanização

Encontro Nacional de Visitadores de Cadeias em Fátima Durante três dias, cerca de uma centena de Visitadores de Cadeias escalpelizaram, em Fátima, a situação de mais de 14 mil presos espalhados pela meia centena de Estabelecimentos Prisionais do País e das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira.

A tecla mais repisada, foi, indubitavelmente, a humanização do preso, como pessoa, que deve ser tratada dentro de quaisquer grades, independentemente de quaisquer crimes que possa ter cometido. O preso nunca deve ser despersonalizado. Como conseguir esta ética? Através de um comportamento da sociedade que, sem beliscar a justiça institucional, torne a comunidade prisional espaço de reabilitação e não escola de vício, inclusive, de perda de valores como, por exemplo, de hábitos de trabalho, quando tentar inserir-se de novo na sociedade, que deve aceitar o preso redimido e não o considerar objecto de rejeição.

A instituição Visitadores de Cadeias, com estatuto oficial próprio, é uma das estruturas que tem vindo a fazer um trabalho muito válido neste universo, que vem a aumentar nos últimos anos, produto de muitos factores emergentes da própria sociedade, uma sociedade que não é abstracta, mas que tem muitos nomes, por isso, porventura, mais difícil o caminho a trilhar.

Foram estas as interrogações postas ao longo de três puxados dias a todos os que se refugiaram nos Capuchinhos de Fátima e se consciencializaram ainda mais da nobre missão evangélica do… “Eu estive preso e fostes visitar-Me”.

Testemunhos e exposições, dissecando as mais variadas situações prisionais, desde o Presídio de Tomar (militar) às civis, foram motivo de enriquecimento e de procura de dar a mão a quem prevaricou.

Porque vamos à cadeia? É porque ali estão os nossos irmãos

O Coordenador Nacional, Padre João Gonçalves, nas suas intervenções, disse do papel que cabe ao Visitador: “Porque vamos à cadeia? É porque ali estão os nossos irmãos, os amigos, os conhecidos; pode até estar um desconhecido, alegadamente acusado de ofensas a um outro irmão ou a um amigo ou familiar. Na Prisão está Jesus Cristo, disfarçado, mas real”, salientando que “o recluso não é pessoa de segunda classe, nem o alvo de todas as queixas, nem o terminus da sociedade cinzenta. O recluso é, para o homem de fé evangélica, o Mestre com quem sempre se aprende; o mesmo que andou por terras distantes, em época distante; Ele quis identificar-se com os frágeis; e já que Ele é Mestre, também é mestre no pobre, no sem-abrigo, no imigrante, no desempregado, no marginal, no recluso. Isto significa que temos, nós, de ser também e sempre, discípulos, aprendizes.” E continua a questio-nar apresentando o seu testemunho: Quando se passa para além dos portões, o Voluntário vai quedar-se para ouvir a voz dos seus “mestres”; e após longos silêncios de es-cuta, o Visitador pode exclamar, com verdade: Mistério da Fé! Saímos sempre mais enriquecidos, porque fomos dar; e “é no dar que se recebe”; os acomodados, os medrosos, os egoístas, “não entendem a linguagem do receber, porque têm dificuldade em treinar a linguagem do dar”, diz o novo Coordenador Nacional.

A Sub-Directora Geral dos Serviços Prisionais, Drª Fernanda Farinha, incentivou os Voluntários, salientando a necessidade de uma formação permanente. “Nada de francos-atiradores”, adiantando que o nosso voluntariado não fica atrás do de outros países.

Aludindo ao sistema de cadeias, adiantou que “há barreiras que só o voluntariado pode abrir”; sublinhou, a propósito da FIAR, que “há necessidade de se incentivar o associativismo, também na área da Justiça.”

Intervieram, entre outros, Joaquim Rosário, Drª Manuela Tavares, directora da Prisão de Linhó, Padre Dâmaso, Dr. José Pires, Sousa Mendes e, do Presídio Militar de Tomar, António Vasconcelos e Dr. João Silva.

O encontro, organizado pela FIAR – Fraternidade das Instituições de Apoio a Reclusos -, teve a presença de técnicos da Direcção Geral dos Serviços Prisionais, do Coordenador Nacional da Pastoral das Prisões, Padre João Gonçalves, que representou, também, D. José Alves.