À luz do dia Os pais de primeiro filho são sempre confrontados com mil e uma frases feitas, trocas de experiências, conselhos mais ou menos avisados e partilhas mais ou menos íntimas sobre o que é ser mãe e pai.
Entre tudo o que se diz e se ouve numa fase particularmente decisiva para quem inaugura uma família e vive pela primeira vez a maternidade ou paternidade, há frases que se podem revelar verdadeiramente assassinas.
Falo especialmente do que dizem, de forma leviana, aqueles que sabem que têm ascendente sobre os outros. Dou um exemplo. Um médico pediatra cujo nome não cito, por preferir acreditar que teve uma saída infeliz, aconselhou os pais de um bebé recém-nascido a não lhe dar beijos na cara até, pelo menos, aos três meses de vida. Isto para evitar contágios, transmissão de bactérias e coisas assim.
Dito por um médico, ou pior, dito pelo pediatra do primeiro filho de uns pais sem a menor experiência, a coisa soa a mandamento. Não beijar o próprio filho parece-me, no entanto, um mandamento excessivo. E absurdo.
Privar um bebé dos beijos dos pais, para evitar possíveis contágios, é uma loucura e cria um afastamento artificial que, esse sim, pode ser fatal. A criança fica livre de uma ou outra bactéria, mas, acima de tudo, fica amputada das manifestações de amor dos pais.
Pegar no bebé ao colo, dar-lhe mimos, fazer-lhe festas e cobri-lo de beijos com liberdade e naturalidade faz parte da função parental. Não consigo imaginar sequer como é possível lidar com um filho recém-nascido sem o encher de beijos.
Os beijos na cara, no pescoço, na cabeça, nas mãos ou nos pés são, nesta altura, tão indispensáveis como o ar que os bebés respiram. Dão segurança, transmitem amor e fazem crescer. E não há volta a dar, senhor pediatra!
Felizmente, estes pais a quem teve a infelicidade de dar este conselho esqueceram-no no primeiro minuto após a saída do seu consultório, mas eles e eu perguntamo-nos a quantos mais pais disse o mesmo? E quantos teriam ficado na dúvida sobre se deveriam ou não de seguir o seu conselho?
Igualmente perversas e daninhas são certas conversas que se fazem a propósito do colo. Há quem defenda que não se deve dar demasiado colo, para que os bebés não fiquem “manhosos” (só a palavra me enerva, confesso). Pergunto de quem é a maior manha: se dos bebés, que instintivamente querem aproveitar todo o mimo e colo possíveis, ou dos pais, que aproveitam este “diz-que-disse” para se descartarem do fardo que é, às vezes, ter as crianças ao colo.
Por causa destas e outras supostas cautelas, conheço mães que dão biberon aos seus filhos sem nunca lhes pegar ao colo. Mães e pais que, nos primeiros meses, nos primeiros anos e, depois pela vida fora, se esquecem do valor que tem a proximidade física e afectiva no crescimento e desenvolvimento dos seus filhos.
Choca-me sempre ver mães e pais que não ligam ao choro dos filhos, que os privam de colo e afecto e os tentam educar a partir do berço. Felizmente existem cada vez mais pessoas e profissionais especializados apostados em desfazer estes e outros equívocos.
