Dias positivos Poderá um cientista ou divulgador de ciência ignorar a História da Ciência ou ter dela visões sectárias? Aparentemente, não. Mas na prática, sim. É o que acontece muitas vezes. Em dois encontros públicos recentes, em Aveiro, com pessoas de elevada craveira, notei tomadas de posição que, de alguma forma, rebaixam ou desprezam a fé cristã no diálogo com as ciências naturais. Crentes como eu haveria com certeza na assembleia. Mas é feio desautorizar os convidados. Pelo que eu e os outros optamos pelo silêncio, com o risco de a asneira, à força de tanto ser repetida, ganhar aparência de verdade.
Num desses encontros, dizia o orador que, com a ciência, é possível o diálogo e a discussão, porque o seu método é o experimental. Levantam-se hipóteses, geram-se teorias, elaboram-se leis e tudo é discutível, se entretanto surgirem novas hipóteses, novas teorias e novas leis, su-bmetidas ao escrutínio da experiência. Com a religião, dizia a autoridade ligada a uma das fundações com mais prestígio na divulgação científica, tudo é diferente. O seu método é a revelação, logo não permite discussão, até porque a religião não tem hipóteses nem teorias, mas dogmas.
Noutro, dizia o divulgador que, sendo astrónomo, não podia “acreditar no que dizem os astrólogos, os senhores padres ou outras superstições”. Creio que não erro na frase anterior nem na expressão seguinte. Prescindia dessas “muletas”, embora respeitasse quem delas precisasse.
Não me espanta que não saibam grande coisa de religião e, portanto, confundam fé e religião com superstição e astrologia (esquecendo que a verdadeira fé é inimiga da superstição e da astrologia), ou que ignorem que os dogmas também são fruto de discussão, vivências, história, hipóteses. E que estão sujeitos a evolução e a novos olhares. Admira-me é que não saibam de história da ciência. Se soubessem, notariam que foi graças ao cristianismo e ao Criador transcendente que o céu ficou limpo de deuses e figuras mitológicas; logo, foi possível olhar pelo telescópio e pensar que no aparente caos das estrelas e dos planetas há leis racionais a descobrir. Notariam que as universidades, as grandes construtoras do saber no mundo ocidental, nasceram à sombra das catedrais medievais. Notariam que o surgimento da ciência moderna na Europa não foi uma casualidade.
A ciência podia ter nascido na Grécia Antiga, ou no Médio Oriente árabe florescente, ou na Índia e na China. Mas tal não aconteceu. Surgiu precisamente na Europa. E porquê? Hoje é dado consensual que só no Ocidente europeu havia um quadro mental em que a ciência, com o seu método experimental, pudesse florescer.
E que quadro era esse? Era um espaço espiritual com duas características fundamentais. A primeira é precisamente a fé num Deus Criador (o de Jesus Cristo, pois claro). Sendo Criador, racional e bondoso, só poderia ter criado a natureza segundo leis racionais, estáveis, possíveis de descobrir pelo ser humano igualmente racional (“criado à sua imagem e semelhança”). Sendo um Deus pessoal, estabelecia diálogo com o ser humano através da natureza. Num quadro mental politeísta, a ciência pôde atingir picos interessantes (Grécia Antiga, Índia, China…), mas nunca adquiriu sustentabilidade. O capricho de um deus qualquer acabava por gorar a racionalidade científica.
A segunda característica fundamental é a noção de história. Foi no judeo-cristianismo (Moisés e Jesus) que surgiu a noção de história linear, isto é, uma história feita de evolução. Com altos e baixos, é certo, mas em progresso. As Alianças de Moisés (a velha) e de Jesus (a nova) constituíram sempre marcos no tempo, contra o eterno retorno ou a concepção cíclica do tempo (a começar por aquela que imaginava uma “idade de ouro” no passado e tempos decadentes no presente). Esta consciência da história, da evolução e da não repetição do tempo, foi (e é) igualmente fundamental para o progresso científico.
Por fim, surgem agora cientistas e filósofos da ciência (ou seja, epistemólogos) a dizer que só a racionalidade de base cristã pode salvar a ciência de um grande perigo que a mina desde o seu interior: o cepticismo, que tudo relativiza e destrói as concepções morais fundamentais.
Convém que os cientistas, espíritos críticos, conheçam um pouco mais da história da ciência, porque, como bem sabem, quem não distingue… confunde.
