LICÍNIO CARDOSO
Padre
O fenómeno dos movimentos na Igreja não é recente. Sempre os houve.
Nas últimas décadas floresceram diversos movimentos e novas comunidades um pouco por todo o lado. Com o respaldo da hierarquia tem-se afirmado na vida da Igreja, internacionalizando-se e solidificando-se enquanto organizações autónomas, sustentáveis economicamente e canonicamente erectas. Apresentarem-se como associações de direito pontifício (reconhecidas pela Santa Sé) é a grande meta a atingir e o cartão de visita de alguns destes movimentos.
Quem são estes movimentos? Na sua maioria, os que mais visibilidade têm, são integristas na linguagem e nos símbolos, apresentam dificuldades no diálogo com a diferença e com a pluralidade no seio da Igreja. São um baluarte (afirmam algumas vozes) na vida actual da Igreja, mobilizando milhares de pessoas, enchendo os seminários e dando muitas vocações sacerdotais. Numa época de escassez de vocações sacerdotais, são o melhor que podia acontecer… dizem muitos bispos.
Mas… Há sempre um “mas”. Vemos muitos destes movimentos a diabolizarem o mundo, a olharem para a sociedade apenas no que tem de mal, de pecado, de anti-igreja. Em termos doutrinais não admitem a pluralidade e a diversidade de leituras (não é o mesmo que relativismo, como tantas vezes querem deixar transparecer; o próprio Evangelho é plural, pois não temos um, mas quatro). Esquecem que o mundo é o lugar onde acontece a dinâmica da salvação realizada em Jesus. Não é esta a mensagem da cruz, do ir até ao fim na assumpção dos desafios deste mundo à justiça, à liberdade, à paz e à defesa da dignidade humana? O anúncio do Evangelho e do Reino de Deus como Jesus nos propõe é confundido, mais vezes do que seria desejável, com a lógica da promoção do movimento. Não são todos assim, mas cada vez mais vejo assim muitos movimentos.
Não entendo os movimentos a não ser na aceitação de que o Espírito Santo sopra onde quer e suscita múltiplos dons para o bem de todos. Encontrar o bem que cada movimento traz para as comunidades é um critério a considerar.
Em tempos de apagamento espiritual, as comunidades paroquiais tornaram-se vulneráveis e até dispensáveis. Diz-se que o fim das paróquias está aí e é chegado o tempo dos movimentos.
E é verdade!
De outro modo não se entende a vida paralela em muitas comunidades (missas da paróquia e missas do movimento) em que não se vive a eucaristia dominical como o ponto de encontro de toda a comunidade. Não entendo, por exemplo, a necessidade que haver um grupo nascido na América Latina, com simbologia da cavalaria medieval vir para Portugal ensinar-nos a devoção a Nossa Senhora de Fátima. Não entendo nem aceito movimentos que não sabem unir-se e reunir-se com os demais serviços, sectores e movimentos de uma paróquia. Não entendo os movimentos que não vêem no bispo diocesano (quem quer que ele seja) o rosto do bom pastor que apascenta a suas ovelhas, preterindo-o a favor do líder nacional ou internacional. Não entendo movimentos que querem ser igreja à sua maneira e não trabalham para que a Igreja seja outra, isto é, mais conforme com o Evangelho e a missão atribuída por Jesus.
Não entendo, nesta Igreja que eu amo, a lógica do triunfalismo, do quantitativo em detrimento do qualitativo, da mera sobrevivência institucional que, por si só, não é a garantia de uma verdadeira evangelização.
Jesus pediu-nos que fossemos sal da terra, luz do mundo e fermento na massa.
