Nova direção do Museu de Aveiro entrou no início de setembro, após contestação pública. Pela frente, o desafio de gerar receitas numa casa com muito défice.
As alterações no Museu de Aveiro, com nova direção desde 1 de setembro, devem-se à nova lei orgânica da Direção Geral do Património Cultural e à reorganização das direções regionais de Cultura, em abril passado, o que implicou a passagem da tutela do Museu de Aveiro do ex-Instituto dos Museus (este, por sua vez, dependente do Ministério da Cultura, que foi extinto) para a Direção Regional da Cultura do Centro (DRCC). Estas mudanças levaram à extinção do lugar de diretor de serviço, que era ocupado há nove meses por Paulo César Santos, e à nomeação de Zulmira Gonçalves, equiparada a chefe de divisão. A mudança, em regime de substituição, vale apenas até ao final do ano, pois será aberto um concurso para o cargo de diretor do Museu de Aveiro.
Por outro lado, o Museu de Aveiro fica integrado numa rede de museus do centro do país, que inclui um em Coimbra (Mosteiro de Santa Clara-a-Velha), dois em Leiria (Etnográfico e Arqueológico Dr. Joaquim Manso da Nazaré e Museu de José Malhoa, nas Caldas da Rainha), mais o Museu da Guarda e o Museu Francisco Tavares Proença Júnior, em Castelo Branco. A rede é coordenada a partir de Coimbra, na DRCC, por um diretor de serviços de bens culturais, no caso, Artur Côrte-Real.
As mudanças foram apresentadas pela diretora regional da Cultura do Centro no dia 31 de agosto, após contestação pública de organismos como a ADERAV (Associação para o Estudo e Defesa dos Património Natural e Cultural da Região de Aveiro) e a AMUSA (Associação dos Amigos do Museu de Aveiro). “Falou-se muito. Até pode ser interessante para chamar a atenção para o Museu de Aveiro. Fui a responsável pela escolha destas pessoas que me acompanham. Fui buscá-las pelo seu trabalho”, referiu Celeste Amaro, após explicar as alterações legislativas que derivam, em última instância, da extinção do Ministério da Cultura e da contenção de custos.
A ADERAV, no dia 28 de agosto, contestou que as alterações representam “uma despromoção ou desconsideração [do Museu de Aveiro] em relação aos seus pares”, já que museus como o de Grão-Vasco (Viseu) ou Machado de Castro (Coimbra), não estão dependentes da DRCC, mas de Lisboa. Louvou, por outro lado, o trabalho de Paulo César Santos, que congregou “várias forças vivas do concelho e da região”, ativou um grupo de voluntários e promoveu a reativação da AMUSA (Associação dos Amigos do Museu de Aveiro). E questionou a nomeação de Zulmira Gonçalves não só por “não apresentar nenhuma formação ou currículo na área dos museus, sendo jurista de formação base”, mas também porque nos museus da Caldas da Rainha e de Castelo Branco os diretores foram reconduzidos.
A AMUSA, por seu lado, falou de “neocolonização” e “subordinação” de Aveiro, escrevendo na sua página do Facebook, no dia 30 de agosto, sobre o “Museu de Santa Joana”: “Alterar os sentimentos de pertença da casa onde repousa o seu túmulo e o espólio que a preenche constitui um gesto impensável já que pode ser entendido como um processo de profanação e roubo do edifício histórico do antigo Mosteiro de Jesus”. A associação disse ainda temer “transplantes museológicos empobrecedores do património aveirense”, quando a partilha de acervos e exposições é, de facto, uma das ideias do coordenador da rede.
Posteriormente, após uma reunião com a diretora regional da Cultura do Centro, que decorreu na manhã de 31 de agosto e foi considerada como “esclarecimento oportuno” e “gesto que permite antever a colaboração justa e necessária entre os representantes dos serviços centrais da Secretaria de Estado da Cultura e as associações cívicas representativas de valores locais que importa salvaguardar”, a AMUSA emitiu um comunicado em que afirmou estar ao lado da DRCC e, consequente da nova direção do Museu de Aveiro, “no conjunto de preocupações que tendem a fortalecer a rede nacional de museus e a participação do Museu de Aveiro nas iniciativas que promovam o conhecimento e as manifestações culturais nesta parte do nosso território”.
J.P.F.
Artur Côrte-Real
Trabalha a partir de Coimbra, coordenando a rede de seis museus.
É licenciado em História e mestre Arqueologia. Coordenou o projeto de valorização de Idanha-a-Velha e, desde 1996, tem estado ligado Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, em Coimbra, primeiro como arqueólogo responsável pela recuperação, depois como coordenador da equipa de projeto. É membro do Conselho Geral da Fundação Inês de Castro. É autor de artigos em revistas nacionais e estrangeiras com destaque para a “Revista Património Estudos” (IPPAR/IGESPAR) e a “Révue de L’Art”. Publicou um livro sobre Idanha-a-Velha e outro sobre o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha.
Zulmira Gonçalves
Diretora do Museu, trabalha a partir de Aveiro, “a tempo inteiro”.
É licenciada em Direito e mestranda em Gestão de Recursos Humanos e Comportamento Organizacional. Tem um curso de Administração Autárquica e é pós-graduada em Direito da Comunicação e Direito do Emprego Público. É coautora do livro “Como Administrar uma Freguesia”. Desenvolveu carreira profissional na administração autárquica da Figueira da Foz e de Coimbra, destacando-se o cargo de chefe da Divisão Administrativa e de Atendimento, da Câmara Municipal de Coimbra, de 2002 a 2010.
Desafio da boa gestão
A nova direção tem pela frente o desafio de tornar a casa menos dependente do financiamento externo. O Museu de Aveiro tem um orçamento anual de cerca de meio milhão de euros. As receitas, basicamente dos bilhetes e da loja, cobrem apenas cerca de 10 por cento das despesas (ver “números”). Celeste Amaro espera que no futuro as receitam venham a cobrir todos os gastos exceto os ordenados. Ou seja, bilhetes, loja do museu, cafetaria (algo que já estava nos projetos da anterior direção) e outros projetos deverão gerar perto de 200 mil euros, quatro vezes mais do que na atualidade. A responsável da DRCC não se comprometeu com prazos, mas concordou que o sucesso da nova equipa será avaliado também pela capacidade de gerar receitas próprias, o que pode começar, até, pela simplificação da bilhética, já que é preciso “quase dez minutos”, como afirmou, “para ler todos os preços dos bilhetes”.
Artur Côrte-Real, com trabalho reconhecido no Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, incluindo quanto à sustentabilidade financeira, adiantou que é necessário “ser inventivo” para gerar receitas e novos públicos e apontou algumas ideias: “criar sinergias com as câmaras municipais”, “trabalhar com a rede de museus do Centro e trocar coleções” “apostar no merchandising”, alargar horários até às 19h30 no verão, procurar mecenas, alugar instalações para eventos. Para começar, até ao final do ano, o Museu de Aveiro vai mudar a sinalética e ter um novo sítio eletrónico.
Alguns números do Museu de Aveiro
– 20 funcionários
– 517 mil euros de gastos totais por ano (338 mil euros de despesas com pessoal mais 179 mil em eletricidade, água e outros serviços)
– 54 mil euros de receitas (previsão para 2013)
– 5,5 milhões de euros gastos na renovação (recuperação do edifício e construção de nova ala) entre 2006 e 2009
