Na Liturgia o canto facilita o encontro com Deus

JOÃO GAMBOA

Autor e dirigente coral

Na celebração litúrgica não se canta para agradar às pessoas – os cantores ou a assembleia –, canta-se a Palavra de Deus que é, desde todo o tempo e sempre, uma espada de dois gumes, brasa ardente que purifica os lábios, refrigério e consolação dos corações. Na celebração litúrgica, a música encontra-se totalmente ao serviço da manifestação do Nome de Deus. O seu objectivo não é o entretenimento social ou o deleite emotivo, é antes uma experiência viva e participada de fé. Por outras palavras: a música litúrgica, na sua construção e execução, é aquela que permite e ajuda a rezar em adoração, aquela que não atrai a atenção para si mas, antes, na abstracção total de si, nos coloca num ambiente de oração e de vivência privilegiada da fé.

Se isto, pelo menos, não for conhecido e tido em conta, é evidente que a música que se escolhe e canta não é a música boa, não é a música nobre. Então, em vez de atitude e ambiente de oração, temos espectáculo com barulho e banalidades; em vez de textos belos e com força tirados ou inspirados na Sagrada Escritura e que sublinham as ideias das Leituras a proclamar ou já proclamadas, ouvem-se palavras enfezadas e banais que nada dizem do essencial, promovem imagens imperfeitas de Deus e de Cristo e até inculcam erros doutrinais; em vez do encontro com Deus presente na Assembleia litúrgica e na sua luminosa Palavra, o edifício litúrgico desagrega-se, não se vislumbra o Transcendente e tudo não passa de simples convívio de pessoas.

Cantar e tocar bem um instrumento na Liturgia é rezar. Para cantar bem é preciso ter boa voz e bom ouvido, mas requer-se sobretudo uma adequada atitude interior – cantar com alma! – e escolher bons cânticos. Os cânticos devem exprimir a Fé da Igreja e não um vago sentimento do religioso, individualista e promíscuo. Abundam por aí as cançonetas de consumo que impedem e paralisam o crescimento interior, não aproximam de Deus e não conduzem a um diálogo sincero com Ele. A linguagem musical típica da liturgia tem como modelos o canto gregoriano e a polifonia clássica. Diz-me o que cantas na Liturgia e dir-te-ei a fé que tens.

Tanto temos a estudar e a aprender! Tanto temos a corrigir e a aperfeiçoar! Tanto temos a renovar! Todos – sobretudo responsáveis e orientadores de Coros e sacerdotes! Haja também quem nos ensine e queiramos nós aprender! Antes do verão, o ISCRA (Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro) organizou e anunciou um curso de três dias sobre “A música na Liturgia”. Não se realizou porque as inscrições eram insuficientes.

Alguém que participou, há semanas, na celebração cristã de um matrimónio com eucaristia, testemunhava-me que “a única coisa que se aproveitou foi o coro”. Outra pessoa contou-me que, numa missa paroquial em que tomava posse o novo pároco, havia um ambiente de cochichos e risotas, distracção e movimentações despropositadas; que o único cântico com carácter e qualidade litúrgicos foi o salmo responsorial e só este foi acompanhado pelo órgão; que o resto eram canções com textos longos, confusos e pobres de conteúdo, projectados num ecrã (e isso é que lhe permitiu “ouvi-los”), e acompanhados com guitarras, não dedilhadas mas batidas, incluindo o ato penitencial e o “Cordeiro de Deus”; que a pessoa que “dirigia” o canto tocava guitarra, de pé, em frente ao coro; que a procissão de apresentação das oferendas era constituída por uma vintena de pessoas com objectos que não eram destinados nem aos pobres nem à Igreja…

A gente ouve estes relatos e testemunhos e, imaginando e observando também algum caos litúrgico, fica triste e apreensivo, decepcionado, em sofrimento…

No monte de Deus, o Horeb, Elias não encontrou Deus no vento impetuoso, nem no abalo de terra destruidor, nem no fogo aterrador. O Senhor manifestou-se-lhe na brisa suave e ligeira (1 Reis 19, 9a. 11-13a). Na vida por aí e na Casa de Deus, na Liturgia, Deus não se revela no barulho e na agitação, na acção litúrgica mal organizada, no canto inadequado. A celebração litúrgica, que é ação sagrada por excelência, deve ser espaço de contemplação e tempo de interiorização e crescimento, pela escuta da Palavra, pela oração e pelo verdadeiro encontro com Deus. O canto deve ser facilitador dessa experiência espiritual e de fé.