Questões Sociais As políticas sociais deram um contributo extraordinário para a melhoria do bem-estar do povo, sobretudo a partir do século XX. No entanto, ao mesmo tempo, alimentaram um orgulho e desumanidade impressionantes, que têm resistido a todas as mudanças políticas.
O orgulho e a desumanidade vêm-se traduzido, há muito, em duas ambições desmedidas: Uma presunçosa omnipotência para a solução dos problemas sociais; e uma presunçosa omnisciência para o seu conhecimento. A fusão destas duas presunções acha-se consagrada na ilusão do «Estado-providência», como se ele fosse um verdadeiro Deus. Ao contrário do recurso à designação megalómana «Estado-providência», alguns autores optaram por outras mais modestas, como por exemplo «Estado social» ou «Estado de bem-estar».
Com a presunção de omnipotência, o Estado apresenta-se como solucionador de todos os problemas sociais; e, com a presunção de omnisciente, apresenta-se como detentor de toda a informação sobre eles. Enquanto «omnipotente», menospreza os agentes sociais considerados inferiores, em especial a entreajuda e o voluntariado de proximidade; e – pior ainda – abandona quem precida do apoio destes agentes. Enquanto «omnisciente», menospreza o conhecimento que provém desses mesmos agentes «inferiores»; e – pior do que isso – menospreza a própria realidade, substituindo-a por abstracções estatísticas ou de outra natureza.
O orgulho e a desumanidade tanto se observam nas forças de governação como nas de oposição. A «omnipotência» dos governos traduz-se na exibição do seu poder para a solução dos problemas; e a «omnipotência» das oposições traduz-se na afirmação de que ela é superior à dos governos. A omnisciência dos governos e das oposições traduz-se num jogo permanente de ocultação e desocultação de problemas sociais: Nesse jogo, os governos procuram demonstrar que a situação social não é tão grave como se diz; e as oposições comprazem-se em demonstrar exactamente o contrário. Entretando, as pessoas necessitadas e a entreajuda e o voluntariado de proximidade vão sendo marginalizados e ignorados tanto pelos governos como pelas oposições.
Haverá saída para esta marginalização e ignorância opressivas? A sociedade e o Estado serão capazes de inflectir tão nefanda tendência? – Infelizmente, não existem motivos suficientes para esperarmos que isso aconteça; nem a própria crise suscitou, até agora, movimentos consistentes a favor da verdade e da humanização sociais…
