Não estamos vazios!

I Centenário da morte da B. Isabel da Trindade (1906-2006) Têm razão os que invectivam os centenários; mas alguma coisa hão-de ter os que, morrendo, não morrem de todo e lentamente nos vão aparecendo subindo os outeiros da vida. Não será certamente por eles, mas por nós, que os vamos descendo.

Narram as crónicas do Carmelo de Dijon que, quando o ilustre cardeal Mercier, arcebispo de Malines, visitou aquele Carmelo, ao passar pela sala capitular, lhe mostraram um qua-dro da Bem-aventurada Isabel da Trindade.

— Quanto tempo viveu ela no Carmelo?, perguntou o prelado.

— Cinco anos, Eminência!, respondeu a prioresa.

Sorrindo, o cardeal comentou: Aqui fazem-se santas muito rapidamente!

De facto, assim é: S. Teresa Margarida do Coração de Jesus (1770, 23 anos); S. Teresinha (1897, 24 anos); Isabel da Trindade (1906, 26 anos); S. Teresa de los Andes (1920, 20 anos). Estas entre várias outras e outros Carmelitas morreram jovens e com pouco tempo de vida claustral. Aqui, na terra fértil do Carmelo, a santidade desabrocha sadia, ousada e temporã.

Isabel Catez nasceu a 18 de Julho de 1880, em Bourges, França. Nasceu num campo militar e talvez os ares marciais, cheirando a pólvora e empedernidos de ordens e insígnias, tenham confirmado o seu temperamento turbulento, irascível e violento. Mas como ser amiga do pacífico Jesus com um temperamento tão assim sem jeito? Por isso se impôs a si mesma um combate: vencer-se. Ou derrotar-se.

Viveu despreocupadamente a juventude, como uma jovem da classe média do seu tempo. Era excelente pianista e de futuro muito prometedor. Gostava da música e das palmas, dos bailes e dos festivais, dos prémios e do sedutor reconhecimento social. Era uma apaixonada da moda, dos serões musicais, do mar e das caminhadas pelos montes. E também dos doentes e dos pobres, da catequese, das crianças e da oração. Gosta loucamente de Jesus.

Aos 21 anos, entra no Carmelo de Dijon vencida que foi a última oposição: a aparentemente irredutível autoridade de sua mãe. Viveu no Carmelo apenas cinco anos. Mas havia muitos mais que era Carmelita de alma e coração. Ali, no Carmelo, naquela vida tão ao contrário da da juventude, viveu profundamente feliz: dedicou-se à oração rodeada pela sobriedade, pelo frio e pelo nada, pela pobreza e pelas suas irmãs Carmelitas, sem o seu piano e sem o brilho dos vestidos lindos.

No decurso do seu crescimento espiritual intui que deve chamar-se «Louvor da Glória» de Deus, pois «Ele tanto nos amou»! Intuiu chamar-se e intuiu viver.

Conhecedora de que, no mundo, isto é, na vida da família e dos negócios da sociedade, não é nada fácil viver em permanência o louvor da glória, escreve com alguma frequência a alguns leigos, à mãe, irmã e amigas, a quem confia a tarefa de, nas suas ocupadas e agitadas vidas, amar o amor, pagar o amor com o amor, porque o amor atrai amor. Com todos, sobretudo os leigos, partilha o seu segredo: todos somos amados, todos somos habitados pela presença de Deus. Deus gosta de habitar as humildes cabanas das nossas vidas.

Dois anos antes de morrer, compôs a sua conhecida oração: Ó Trindade a quem adoro!, um dos cumes espirituais do século XX. Segundo alguns é um cume talvez equiparado a outros, mas jamais ultrapassado.

Enferma da doença de Addison, à época incurável, sofre horrivelmente durante nove meses, como que a preparar o seu nascimento para a vida que tem por porta a morte. Lentamente, as forças abandonavam-na e ela sente-se entrar nos átrios da vida que não morre e onde se é — onde cada um descobrirá que é — para sempre Louvor da Glória.

Morreu a 9 de Novembro de 1906, mas celebra-se sempre no dia anterior, a 8. Isabel é a profeta que os tempos actuais necessitam. Perante o inevitável frenesim da vida que nos faz viver excessivamente e à superfície da pele (e até fora dela…), ela propõe a todos, e não apenas aos habitantes dos sossegados claustros conventuais, a consciência da plenitude e da presença. Nenhuma presença como o Presente — o Único, Aquele que jamais passa — plenifica a vida, lhe dá sabor e recheio. Dir-se-á que as obras e os sonhos, os filhos e as carreiras, os perfumes, os êxitos e a prática do bem podem preencher os salões da vida. Mas não. Não completamente. Quando muito, e ainda que bons, não passam de água salgada: sacia mas aumenta a sede de quem a bebe. É por isso que faz sentido assinalar a chegada dos mensageiros da plenitude da presença, como Isabel da Trindade porque eles, que beberam da contingência como nós, bebem agora da Fonte. Eles, que habitaram o vazio e ocuparam as células da vida com seus gestos e construções, sabem que jamais estamos vazios, se estamos inteiramente abertos e despertos para o Deus que aluga as vidas das suas criaturas a fim de nelas habitar, fazendo delas um céu, onde já não haja outro ofício que não o de amar.

Frei João Costa, OCD