Não há mortos!

A fé não nos torna insensíveis perante a morte. Também para os crentes ela é um mistério de silêncio, de privação de comunicação. A dor e a saudade, que este transpor do limiar dos dias deste mundo acarreta, tocam a todos, embora de maneira diversa. E são legítimas. Todavia, à luz da vida de Jesus Cristo, acolhendo os Seus ensinamentos, nós temos possibilidade de olhar para esta realidade da vida de todos com outros olhos.

“Não há mortos. Todos estamos vivos. Uns ainda nesta vida terrena, comendo, bebendo, trabalhando, sofrendo, alegrando-se, etc. Outros, verdadeiramente vivos, do outro lado da morte, que é passagem para a eternidade sem fim. Vivos em Deus”. Estas palavras, verdadeiramente sugeridas por Deus, dão o mote para uma reflexão serena sobre a morte; sugerem as atitudes a termos no “culto dos mortos”.

Os nossos cemitérios enchem-se, por estes dias, de velas e flores. Multidões acorrem a zelar as campas dos seus familiares e amigos. Também é certo que se multiplicam as celebrações litúrgicas e muitos acolhem esses momentos como ocasião de verdadeira intimidade com aqueles junto de cujos restos mortais – como memória da vida neste mundo – passam um bocadinho desses dias.

Fundamental é considerarmos que todos fomos criados para a eternidade. “A vida não acaba; apenas se transforma”. A morte é a porta que nos abre a vida em plenitude, à qual amorosamente fomos chamados por Deus. Assim sendo, não é tão importante a homenagem aos restos mortais como a caridade cristã com aqueles que continuam vivos, a precisar do fluxo do “sangue” da nossa fé, da nossa oração, da nossa vida de santidade.

Sabendo que Jesus Cristo assumiu a nossa natureza humana frágil, vulnerável, para, unida pessoalmente à Sua divindade, a fazer ultrapassar, pela Sua ressurreição, o limiar da morte, consolida-se em nós a certeza de que a morte é a dormição serena, à espera da festa final com o Cordeiro. Assim sendo, os que partiram estão vivos, integram a mesma humanidade assumida por Jesus Cristo, são o mesmo Corpo – a Igreja, do lado de cá ou do lado de lá da morte.

Podemos considerar, assim, como Santo Agostinho, que os não perdemos. Deixam de estar ao nosso lado, para estarem agora dentro de nós, mais íntimos ao nosso íntimo, porque mais íntimos ao próprio Cristo. Nesse sentido, a nossa comunhão com eles – verdadeira comunhão de santos, intensifica-se pela nossa comunhão com Cristo.

Então perguntemos: Não estaríamos mais próximos de Jesus Cristo, se nos preparássemos e comungássemos em união com os nossos defuntos? Participar na Eucaristia não seria uma caridade muito mais verdadeira com eles do que cobrirmos-lhes as campas de flores? Viver a nossa vida cristã quotidiana em fidelidade à graça baptismal não nos traria uma intimidade muito mais serena e convicta com eles?…

Não fica mal zelar os nossos cemitérios, manifestar o nosso respeito pelos defuntos com a limpeza das suas campas, com uma flor simples de decoração. Mas eles não estão ali. Não há mortos! Então, é preciso estar com eles na vida em que eles se encontram: na comunhão dos santos!