Aveiro e a Hungria

Memória CV – Há 50 anos No dia 23 de Outubro de 1956, operários, estudantes e intelectuais derrubaram a estátua de Estaline em Budapeste, Hungria, iniciando um processo de autonomização em relação à União Soviética. A insurreição alastrou a todo o país; mas no dia 4 de Novembro os tanques russos iniciam a repressão da revolução democrática e a Hungria ficou sob a alçada da URSS mais 33 anos.

Há cerca de um mês, no Centro Universitário Fé e Cultura, D. Ximenes Belo recordou que, no longínquo Timor, com a sua mãe e os seus irmãos, em 1956, rezava pela Hungria.

A revolta popular contra o comunismo e a posterior repressão soviética comoveram o mundo. Aveiro não ficou indiferente.

A edição de 17 de Novembro de 1956 dedica página e meia às manifestações “de solidariedade com a nobre Hungria, ou de repulsa pela violação dos direitos de Deus ou do homem”. “Há quem diga que a época heróica das epopeias já pas-sou; mas desmente a afirmação o caso da Hungria, onde se luta, com fé e patriotismo, pela liberdade que a Rússia pretende afogar em sangue”, escreveu este semanário.

Para mostrar-se solidário, e como forma de “acudir ao apelo do Santo Padre [Pio XII] para uma cruzada mundial de orações a favor da paz e dos povos oprimidos e martirizados”, o povo de Aveiro encheu a Sé Catedral, no dia 9 de Novembro, rezou a Via-Sacra e cantou a ladainha de Todos os Santos. Isto, numa sexta-feira. No dia seguinte, por iniciativa da Academia do Liceu de Aveiro, milhares de pessoas se concentraram junto ao antigo Cine-Avenida (hoje, uma dependência bancária) e desfilaram até ao Governo Civil, onde entregaram uma mensagem ao governador, Francisco do Vale Guimarães, que se prontificou a transmiti-la ao “Sr. Presidente do Conselho”. Depois de “vivas e palmas ao povo húngaro e a Portugal”, os manifestantes cantaram o hino português.

A terminar, o Correio do Vouga refere que “os estudantes de Aveiro tomaram também a nobre iniciativa de angariar donativos em dinheiro, géneros e medicamentos, a favor das vítimas da Hungria. Já enviaram para a Cáritas 9.405$00 em dinheiro e dois caixotes com medicamentos e roupas”.