Nos 25 anos da morte de Karl Rahner

Vidas que marcam Karl Rahner, grande teólogo do século XX, nasceu a 5 de Março de 1904 em Freiburg im Breisgau (Alemanha) e morreu a 30 de Março de 1984 perto de Innsbruck (Áustria). Este sacerdote jesuíta passou grande parte da sua vida a ensinar nas cidades de Innsbruck, Munique e Münster. Foi o teólogo do Cardeal König, arcebispo de Viena, no Concílio Vaticano II.

Para Rahner, a teologia não era um fim em si mesmo. Na sua obra “A coragem do teólogo” afirma: «sempre fiz teologia com vista à pregação, com vista à pastoral». Aponta-se aqui um paradoxo em Rahner. Ele era, ao mesmo tempo, um grande especulativo e alguém desejoso de transmitir a fé. De facto, o jesuíta francês Bernard Sesboüé considera que a linguagem teológica de Rahner é incontestavelmente difícil. Num livro que escreveu a respeito deste, considera que «a sua frase teológica é técnica, longa e pesada, como um comboio blindado que avança prudentemente sobre o trilho e se mantém à espreita de qualquer objecção que se possa fazer àquilo que ele ainda não exprimiu». Mas também acha que «esta barreira literária não impediu a sua voz de ter eco e ser ouvida junto dum grande público».

Rahner vivia com a preocupação de ajudar as pessoas do seu tempo a serem crentes. Insurgia-se contra o que considerava a vulgaridade dum mundo do qual Deus se encontrava exilado. Empenhou-se num diálogo com os não crentes, assente em dois princípios. Primeiro, fazer sobressair aquela experiência humana fundamental que se afigura comum às duas partes do diálogo. Deve funcionar como plataforma de entendimento a partir da qual se possa prosseguir a troca dos argumentos. Segundo, reconhecer o que cada interlocutor é. O crente sente e pensa como crente; o não crente sente e pensa como não crente.

Para Rahner, a teologia compromete quem a elabora até ao fundo da sua experiência de Deus. Parte da fé do autor e visa a fé do leitor. É como homem de fé que Rahner se dirige ao ser humano actual com o intuito de o ajudar a crer. A dificuldade do discurso de Rahner parece ter mesmo a ver com a sua ligação íntima ao que ele vive interiormente. Surge com uma carga experiencial profunda que dificilmente será compreendida numa só leitura. Pode ser necessário reler uma ou mais vezes. Às tantas, é a experiência do próprio leitor que se vê convidada a acompanhar a do autor, através do que este lhe diz por intermédio da sua produção teológica. (…)

Rahner opera na teologia o que se chama «viragem antropológica». Ele não acha que se deva levantar a questão de Deus no abstracto; quer formulá-la a partir do ser humano enquanto tal. Tem todo o sentido que assim seja. A revelação de Deus dirige-se ao ser humano e tem de o atingir no mais profundo do seu ser. É, então, a partir deste que se há-de verificar a credibilidade da proposta cristã. Não convém fazer teologia à margem da experiência fundamental do ser humano. É arrancando desta que se deve construir um discurso sobre Deus. Rahner procura manter em ligação estreita o essencial do ser humano e o essencial do cristianismo. Aquele interpela este; este deve estar preparado para lhe responder. Por um lado, o ser humano carrega consigo uma pergunta com a qual não cessa de se confrontar: a pergunta do que ele próprio é no fundo. Ele tem essa questão; melhor ainda, ele é essa questão. Por outro lado, deve-se pensar aquilo que o cristianismo tem fundamentalmente a dizer como resposta à tal questão que o ser humano é em si mesmo.

Domingos Terra, sj