A Árvore de Zaqueu 5.º DOMINGO DA PÁSCOA – Ano C
Nova lei com Artigo único. Não será o sonho de quem se vê aflito perante o número infindável de portarias e seus artigos, que só aumentam as dúvidas – quando não entram em contradição?
Para o autor do Apocalipse, uma coisa assim só seria possível com «um novo céu e uma nova terra», onde os seres humanos já não encontram lugar para a maldade e tristeza, porque todos podem seguir os impulsos do seu coração e agir de um modo tão benéfico para todos que será patente que «Deus habita com os homens». Enfim, a forma perfeita do «reino de Deus», pela qual vale a pena «sofrer algumas tribulações», como se lê nos Actos dos Apóstolos.
Já é corrente dizer coisas lindas como «pelo sonho é que vamos»… mas o que espanta é que é mesmo verdade!
Se não tivermos o sonho de um artigo único a orientar a vida, não podemos sonhar com um clima de confiança entre os seres humanos, assente na vontade de desmontar os caminhos da injustiça e de descobrir a harmonização possível entre o que é bom para cada qual e para a comunidade em conjunto. Só um artigo único pode ser suficientemente interiorizado para ser eficaz nos nossos amores, nos nossos negócios e nas mais loucas aventuras.
O evangelho fala deste «artigo único» (o Novo Testamento fala dele muitas vezes). É bem conhecido, mas a verdade é que passou a ser olhado apenas como bonitinho e «beato» – até consta que os próprios discípulos de S. João estavam fartos de o ouvir tantas vezes! Também não basta cantar «como é belo amar como Jesus nos amou»…
O artigo único é muito sério: como é que Jesus nos amou?
– Pelos vistos, procurou trabalhar e ser bem aceite no seu meio, sendo facilmente identificado como «o filho do carpinteiro».
– Não considerou a sua vida quotidiana como lixo, mas serviu-se dela para se tornar adulto e solidificar a estrutura necessária para a missão a que se sentia chamado (Lucas 2,52).
– Reflectiu seriamente sobre a validade e solidez do seu projecto de vida, atento ao que podia dar aos outros de melhor (Lucas 4,1-13, Mateus 7,24-29).
– Para realizar a sua missão, não hesitou, por vezes, em demarcar-se de familiares, amigos e gente influente na sociedade – mas apontando razões, atento ao que era positivo e a como aproveitar as capacidades de cada qual (lembrar os episódios da samaritana em João 4; da «pecadora» em Lucas 7,36-50; a parábola dos «trabalhadores da vinha» em Mateus 20,1-16;…).
– Preocupou-se com o bem-estar físico e espiritual das pessoas em concreto (sobretudo das mais abandonadas socialmente).
– Opôs-se à classe dirigente (Mateus 23) como símbolo das más consequências da «institucionalização da vida», um fenómeno que dificulta a evolução positiva da sociedade (e da religião do seu tempo), ao dificultar o entusiasmo e as energias insubstituíveis de cada qual, provocando uma «igualização por baixo», com o que só lucram alguns detentores de poder.
– Aceitou e publicitou a morte como manifestação da vontade em querer deixar aos outros alento para viver o mais plenamente possível. Consciente de que a sua posição firme em defesa do bem lhe trazia o risco de morte violenta. Sem ter vergonha de chorar e de gritar a tristeza e dor, sobretudo por se sentir sozinho.
O artigo único é exigente, porque nos obriga a pensar como é que podemos fazer as coisas da melhor maneira possível, mesmo as mais corriqueiras ou as da nossa vida íntima. Vai contra a tentação comodista de não ter que reflectir sobre o que é que está bem ou está mal. Mas é uma força que nos acompanha do nascimento à morte e que permite que cada um de nós seja uma presença animadora para os outros ao longo de toda a vida.
Manuel Alte da Veiga
