Poço de Jacob – 32 Num domingo do Tempo Comum, as leituras sugeriram uma ideia muito importante: O que seria preciso que Deus encontrasse em mim para fazer algo de mim e comigo? Não é difícil imaginar que Ele fez algo dessa mulher, a Samaritana dos cinco maridos que não eram dela. O seu entusiasmo em ir chamar as pessoas da povoação, confessando os seus pecados, revela que algo de muito forte se passou com ela. Algo mudou. E isso porque Cristo fez com que ela recuasse ao seu ponto zero, não na dignidade, mas no conceito que ela fazia de si própria.
A primeira coisa necessária para Deus poder fazer algo connosco é partirmos da consciência do nosso nada. Não valho nada. Sou nada. Um grãozinho de areia ou uma gota de água que parece que não enchem nem praias nem oceanos. Este é o ponto de partida. E, quando à vista dos nossos êxitos, nos arvoramos em gente importante, Deus, aos seus, encarrega-se de nos colocar no sítio, fazendo-nos experimentar esse nosso nada através do pecado que cometemos, da imperfeição, da perseguição, doença ou fracasso, rejeição e calúnias, impotência pelos limites da vida… A nossa contingência sempre tão palpável. Isto é a nossa riqueza e garantia. Este nada atrai a Deus. Somos, como dizia um místico espanhol, “pó enamorado”.
Sem o grãozinho não haveria areia. Sem a gota não haveria oceano. Isto estimulou Madre Teresa de Calcutá a dar de si a cada pessoa, a uma de cada vez. É aquilo a que nós hoje chamados no comércio “atendimento pessoal com qualidade”. Um de cada vez. Sem pressas. Esta é a base para Deus começar e acabar em nós a obra boa. Depois, a experiência do Deus, que, em Cristo, enche este nada. Uma experiência que nos transforma, a partir da oração, em peregrinos do absoluto. É neste nada que Ele coloca os alicerces do seu ser tudo. E só então, formados e informados nele e por Ele, somos enviados a mudar o mundo, com a certeza de que quem faz continua a ser Ele.
A ideia do nosso nada, na vida ascética da Igreja, não é aniquilamento do homem. A nossa sociedade dá muito valor aos títulos e honras do mundo, aos cargos e licenciaturas e doutoramentos, que têm o seu lugar e importância. Mas não é isto que conta para o Senhor. E Ele bem chamou a atenção de Samuel na hora de escolher David. Deus não avalia pela aparência. Onde houver um homem que tema e ame o Senhor, este é amado por Ele. Sem dúvida que a ideia do nosso nada não é uma ideia vazia…
Sabemos que somos acima de tudo, amados por Deus. Somos o “pó enamorado”, que Deus sabe ser útil, na sua aparente inutilidade, para fazer grandes coisas. Assim se tem revelado a vida dos Santos. Por isso, chegando ao fim da vida, muitos pensaram que não tinham feito coisa alguma, que a sua vida estava sem merecimento, que suas mãos estavam vazias, como dizia, de modo tão poético, Teresinha do Menino Jesus.
Isto é o que Deus quer de nós. Fazermos tudo o que estiver ao nosso alcance e que Ele nos manda – e concluir que nada faríamos se não fosse o Senhor. E nada fizemos, porque quem fez foi o Senhor. E no fim quem recebe a recompensa somos nós. Vale a pena apostar uma vida sabendo que a vitória é nossa.
P.e Vitor Espadilha
