Agostinho da Silva e a cultura lusófona em debate Na última sessão de 2006 do Fórum Universal, falou-se de lusofonia, de Comunidade de Países de Língua Portuguesa (a comemorar dez anos de existência) e principalmente de Agostinho da Silva, o sábio que chegou a ser professor no Liceu de Aveiro e inspirou a CPLP. Paulo Borges, o convidado do dia 6 de Dezembro (na foto com o Pe Alexandre Cruz), é presidente da Associação Agostinho da Silva e professor de filosofia. Aqui fica um resumo das suas palavras. A próxima sessão do Fórum está marcada para 17 de Janeiro.
Inspirador da CPLP
Agostinho da Silva (Porto, 1906 – Lisboa, 1994) foi grande entusiasta e inspirador da CPLP. No contexto da cultura contemporânea, foi o homem que mais valorizou a lusofonia.
Gesto simbólico em Aveiro
Em Aveiro, teve o seu último cargo público, como professor do Liceu. Foi expulso, porque não assinou a “Lei Cabral”, em que devia declarar que não pertencia a nenhuma associação secreta. Não pertencendo de facto, achou que por imperativo de consciência não devia assinar. Foi o único que não assinou e só houve uma pessoa que protestou: Fernando Pessoa, que publicou um artigo no Diário de Lisboa contra o carácter absurdo e opressivo da lei.
Uma pedra em Aveiro
As dificuldades – dizia o Prof. Agostinho da Silva – são como as pedras no caminho, perante as quais temos sempre duas possibilidades. Ou paramos e voltamos para trás. Ou subimos acima da pedra para vermos mais longe e continuarmos o caminho. A pedra que surgiu em Aveiro levou-o ao Brasil. Se não tivesse ido para o Brasil, nunca teria consciência do que são as potencialidades da cultura que fala português.
Cultura dominante
Agostinho da Silva considera que há uma cultura de carácter tecnológico que quer ter um domínio sobre todas as coisas (radica na separação do ser humano em relação ao mundo). É a cultura dominante no mundo. E há outras, como a portuguesa, que, pelas suas raízes arcaicas, estão destinadas a ser resistentes.
Identidade
Na linha do seu sogro, Jaime Cortesão, Agostinho da Silva valoriza um fenómeno surgido no séc. XIII, que considera específico da identidade cultural dos portugueses: o culto popular do Espírito Santo, baseado nas ideias de Joaquim de Flora, segundo o qual a Trindade se expressa temporalmente através de uma idade do Pai, outra idade do Filho e outra do Espírito Santo.
Culto do Espírito Santo
O culto do Espírito Santo tinha três características. Primeira: A libertação dos presos, símbolo da reconciliação social. Mas também a libertação do preso encarcerado dentro de cada pessoa, a energia que cada pessoa tem dentro de si, aquele que está isolado da unidade primordial, a dimensão do homem que é reprimida nos quadros mentais e civilizacionais da nossa cultura.
Coroação da Criança
Outro aspecto fundamental: a coroação de uma criança como Imperador do Espírito Santo. Significaria que verdadeiramente divinas são as crianças, mais do que os adultos. E só elas (os homens tornados crianças, convertidos ao Deus Menino) podem ter acesso ao reino de Deus.
Bodo aos pobres
Por último o bodo gratuito, em que os mais ricos servem os mais pobres. Isso significava a necessidade de ultrapassar o regime de uma economia voltada para a produção, o consumo e o lucro e não para a satisfação das necessidades mais básicas. Significava o retorno a uma época em que o homem não estava em conflito com a natureza, em que se libertava do trabalho e voltava a partilhar. Agostinho vê nisso um objectivo do mundo novo a haver.
Apogeu da cultura portuguesa
Ora, Agostinho da Silva considera que o Culto do Espírito Santo significa o apogeu da cultura portuguesa, o momento em que Portugal está prestes a partir para as Descobertas, em que a economia é comunitária e pré-capitalista, em que há uma democracia municipalista (que Agostinho considera autêntica). É o Portugal onde existe uma convivência exemplar das três religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo.
Missão de Portugal
É este Portugal que parte à descoberta do mundo. Para o professor, a missão de Portugal é estabelecer o Reino de Deus à escala planetária, onde todos possam ter acento em termos de igualdade. Mas o que Portugal acaba por levar para todo o mundo é o que triunfa na Europa: uma economia mercantilista e capitalista; o centralismo monárquico em vez da democracia municipalista; não o espírito ecuménico, mas a mentalidade inquisitorial. Triunfa o monoculturalismo. Portugal acaba por ser o primeiro agente de globalização, contra a sua própria natureza. Daí um certo divórcio entre os portugueses e Portugal e a emigração massiva para o Brasil. Tentava-se viver lá o que já não era possível viver no Portugal europeu. Todavia, a aspiração profunda permanece em cada português.
Lutar pela vida?
Agostinho considerava absurdo “lutar pela vida”. A vida é-nos dada de graça a todos, que sentido é que faz lutar para ganhar a vida? O homem é um ser chamado a amar, a olhar para o mundo sem uma perspectiva de dominador, sem perguntar porquê ou para quê…
“Vida conversável”
Na sua visão providencialista da história, considera que a sociedade técnica e capitalista pode ter como finalidade suprir as necessidade materiais do ser humano (“o desenvolvimento”), mas valoriza as outras culturas, a latina, as orientais, as indígenas, as culturas oprimidas, porque mantêm vivo o paradigma da “vida conversável”, uma apetência para estar com o outro sem ser para o instrumentalizar, aprender com a diferença do outro. No fundo, é a vocação para a experiência intercultural, na qual um dos aspectos é a experiência inter-religiosa.
Percursor do diálogo inter-religioso
Agostinho da Silva é um dos grandes percursores do diálogo inter-religioso e inter-cultural à escala planetária. Esse diálogo não se restringe às religiões, mas deve ser aberto a todos os que têm uma experiência do espírito, mesmo que seja no ateísmo ou agnosticismo.
Reconhecimento lá fora
Fora de Portugal (Espanha, Itália, França, Bélgica…), surgem jovens investigadores que estudam em que medida a lusofonia, a partir das ideias de Agostinho da Silva, pode ser um contributo para uma renovação da própria identidade cultural da Europa. O pensamento de Agostinho da Silva é crítico daquilo que tem sido a Europa, mas oferece possibilidades para a transformação da mentalidade europeia. É curioso verificar que as ideias de Agostinho da Silva começam a obter um reconhecimento maior e mais entusiasta desses estrangeiros do que da parte de muitos portugueses. Alguns consideram tratar-se de ideias de um velhote um pouco excêntrico, que vivia com uns gatos.
Coerente
Agostinho da Silva viveu o que propôs. Praticou o despojamento (“atitude franciscana”). Conselheiro do presidente do Brasil e professor, pediu uma barraca para viver com estudantes africanos e da Baía, em vez do apartamento luxuoso que lhe quiseram dar. Recusou direitos de autor e distribuiu o ordenado de professor universitário por alunos e funcionários necessitados. Não foi uma utopia. Realizou aquilo em que acreditava.
