Santo Padre, explique-me a fé toda…

Livro Cinco anos antes de ser Papa, Joseph Ratzinger prestou-se a responder a todas as perguntas de um jornalista “na fronteira da Igreja”. As respostas servem para confirmar os crentes e talvez ajudem a questionar os não-crentes.

Ler uma entrevista de quase quatro centenas de páginas não é tarefa fácil. Há que admitir. Mesmo quando o entrevistado é Bento XVI, na altura “apenas” o cardeal responsável pela ortodoxia da Igreja Católica. A entrevista realizou-se de 7 a 11 de Fevereiro de 2000, na abadia Montecassino (fundada por S. Bento, santo, que, como é sabido, acolhe a devoção do actual Papa e foi uma das razões para a escolha do nome do sucessor de João Paulo II).

Embora seja uma entrevista, o assunto principal não é a acção ou personalidade do entrevistado, mas a fé católica, de que Joseph Ratzinger é testemunha qualificada. Ao longo das cerca de oitocentas perguntas (mais de duas por página, em média), são abordados assuntos como fé e razão, a dúvida, os milagres, o pecado original, a liberdade, Deus, a criação, a Bíblia, o amor, o sentido da vida, a Revelação, Jesus Cristo, a verdade, a vida humana, Maria, os dogmas, a Ressurreição, a natureza e missão da Igreja, os sacramentos, o pontificado de João Paulo II, entre muitos outros. Estamos perante o catecismo explicado por Bento XVI antes de ser Papa, tintim por tintim; porém, sem a formalidade e frieza de um catecismo clássico (referimo-nos aos grandes catecismos da Igreja e não aos catecismos da catequese infantil).

O jornalista Peter Seewald situa-se na fronteira da fé, lançando perguntas que sintetizam o modo de pensar do mundo contemporâneo. Bento XVI, por seu lado, não surge com respostas acabadas, embora afirme com clareza o pensamento católico. Como há dias disse D. Manuel Clemente, numa entrevista, “a fé é uma conversa que nunca acaba”.

Fé e razão

Entre os imensos exemplos que poderíamos invocar desta conversa continuada (há que notar que este livro se situa na linha do outro livro-entrevista, “O Sal da Terra”, de 1996), refira-se o tema “Deus e a Razão” (pág. 46-49). Diz Joseph Ratzinger: “É certo que a fé não é uma qualquer rede de imagens que cada um pode forjar a seu bel-prazer. A fé assalta a nossa inteligência porque expõe a verdade, e porque a razão foi criada para a verdade”. Porém, uns parágrafos depois, acrescenta: “A fé não é compreensível no sentido de poder ser apreendida como uma fórmula matemática, captada na sua plena transparência. É algo que mergulha cada vez mais fundo na infinitude de Deus, no mistério do amor. (…) Não podemos sequer entender inteiramente as outras pessoas porque isso implica descer a abismos que a razão não pode sondar. (…) Nesse sentido, também, a fé não será realmente demonstrável. Não posso afirmar que são tolos os que não a aceitam”. Não há contradição. Há, sim, um diálogo que nunca termina. E cada uma destas quase quatro centenas de páginas podia levantar questões para outras tantas.

Um livro para ir lendo com calma e ao sabor do gostos e necessidades de cada um.

Deus e o Mundo

A Fé Cristã Explicada por Bento XVI

Entrevista de Peter Seewald a Joseph Ratzinger

Tenacitas

388 páginas

Quando Bento XVI andava de autocarro

Na Apresentação da edição portuguesa, o padre jesuíta António Vaz Pinto revela que foi aluno de Ratzinger, na Universidade de Ratisbona (aquela onde Bento XVI viria a pronunciar o discurso polémico, em Setembro de 2006). Mais, teve a sorte de, durante um semestre, utilizar o mesmo autocarro que o professor Ratzinger na deslocação do centro da cidade para o campus universitário. Conta Pe António Vaz Pinto: “Próximo, dialogante, atento e interessado – recordo-me bem das perguntas que me ia fazendo sobre a situação política portuguesa e dos problemas do então Ultramar – acabei por travar conhecimento com o homem que estava por detrás do professor, criando com ele uma relação de verdadeira amizade, embora provisória… Nunca mais nos vimos, provavelmente não se recordará sequer de mim… Mas, para mim, a sua figura de homem, de professor, de amigo, ficou para sempre marcada!” (pág. 12).