Colaboração O investigador descobrira nas grutas daquela montanha uma história estranha sobre uma tribo que por ali começara a viver há milhares de anos. E comunicou-a a uma assembleia de sábios. Dizia assim: «Um avô reuniu toda a Tribo do Vale e da Montanha. E vieram os filhos e os amigos dos filhos, e os netos e os amigos dos netos e netas e os bisnetos e os amigos dos bisnetos e das bisnetas. Quando já estavam todas aquelas centenas de pessoas acompanhadas dos seus burros, gatos, cães, macaquinhos e cordeiros, ele começou: a nossa gente vivia bem, trabalhava, semeava, colhia, fazia pão, criava animais, fazia queijo, matava frangos e cordeiros; alimentava-se, vestia-se e construía cabanas e casas e fornos. E os nossos sábios escreviam e ensinavam a ler, a escrever e a contar. E depois o avô, respirando mais fundo para descansar, continuou: todos faziam contas e vendiam e compravam. Vendiam o que produziam e não precisavam para si, compravam o que não tinham e pagavam com os seus produtos e com o dinheiro do que vendiam.
E agora, com orgulho e erguendo a cabeça, pediu para se calarem e todos ouvirem, e acrescentou: e a nossa tribo não devia nada a ninguém, ninguém tinha dívidas, ninguém nos ameaçava para as pagar.
Um dia abriram por aí um caminho largo e começaram a passar muitas caravanas de camelos, cavalos e carros de muitos comerciantes. Traziam coisas que brilhavam muito, objectos para os homens e mulheres se enfeitarem, coisas que faziam barulho. E muitos começaram a comprar muitas coisas com o dinheiro das que vendiam. Mas o dinheiro não chegava para tudo o que cada um queria comprar. Começaram a pedir dinheiro aos vizinhos para comprar mais e serem maiores que os outros mas ficavam a dever sempre mais. Vendiam o que produziam mas o dinheiro cada vez era menos para comprar tanta coisa bonita. Começaram a ficar a dever as coisas que compravam aos que lhas vendiam e prometiam pagar na semana ou no mês ou no ano seguinte. E cada vez eram mais a dever e que não podiam pagar. Alguns começaram a roubar.
E por fim já todos os da tribo deviam aos vendedores de fora. E estes começaram a ameaçar que vinham fazer seus escravos os devedores para os venderem. E nem isso chegava para pagar as dívidas. E vieram marcá-los com o ferro como escravos. E o Ancião começou a chorar. Agora somos todos escravos de um tirano muito rico da Cidade do Vale do Grande Rio que emprestava o dinheiro. Já não temos nada de nosso nem as mulheres e os filhos nem os animais. Todos somos propriedade dele. E ele já fechou os caminhos da grande aldeia para não fugirmos.
Nisto levantou-se uma senhora avó que pediu silencio porque queria falar a todos. Tinha recebido uma notícia de um Príncipe de longe que vinha a caminho para visitar a tribo. Todos a olharam admirados e viram que ele já se via ao longe.
Ficaram todos em silêncio à espera. O Príncipe com o seu numeroso séquito de servos e cavaleiros aproximou-se e levantou a voz para falar. «Todos vós, escravos e cheios de dívidas, que não podeis pagar, entregai-me todos os papéis dessas dívidas que tendes e os nomes daqueles a quem deveis e daquele tirano de quem sois escravos». Fazei-o vir, quero falar com eles.
Chegados, o tirano e os seus lacaios, o Príncipe perguntou-lhes: quanto quereis por todos estes escravos e quanto vos devem eles? Riram-se do atrevimento de o Príncipe se mostrar interessado em negociar com eles, donos daqueles escravos.
Não penses que tens dinheiro que chegue para os pagar. Nem vendendo tudo o que tens e o reino do teu pai. «Pois eu quero comprá-los todos e dou tudo o que vocês pedirem por eles».
E o Príncipe negociou com os donos dos escravos em segredo e eles aceitaram a proposta do Príncipe. Fechado o negócio, o Príncipe terá dito à tribo que todos estavam livres das suas dívidas e já não eram escravos. E estes nem queriam acreditar na sua palavra».
O investigador que descobriu o escrito deixou-a à assembleia de sábios para que interpretassem este caso e eles já há mais de mil anos que o discutem. Ainda não chegaram a acordo por não atinarem de que crise se trata. Tente você.
Aires Gameiro
