O padre jesuíta Samir Khalil, especialista em islamismo e história do Médio Oriente, oferece um quadro histórico-religioso da situação actual na região, analisa os desafios mais urgentes e propõe algumas possíveis soluções concretas. Entrevista conduzida por Robert Cheaib para a Agência Zenit.
Os cristãos no Médio Oriente não são vítimas de uma perseguição sistemática, mas a sua vida e seus direitos sofrem uma discriminação similar a uma lenta eutanásia, que apaga pouco a pouco a sua presença milenar na região. A assembleia especial do Sínodo dos Bispos para o Oriente Médio teve uma responsabilidade crucial ao propor um remédio para este fenómeno, que o arcebispo caldeu de Kirkuk, D. Louis Sako, define como “hemorragia dos cristãos do Oriente Médio”.
O aspecto geopolítico da presença cristã no Oriente Médio é decisivo para sua permanência ali?
Não há dúvida de que sendo uma minoria que não supera 10% da população do Médio Oriente, enquanto a grande maioria é de religião muçulmana, a nossa existência depende do consentimento desta maioria, sobretudo porque o Islão se concebe como Estado e religião. E dado que há mais de 30 anos a grande maioria dos Estados do Médio Oriente adoptou um ponto de vista islamista na realidade estatal, onde a religião decide todos os detalhes da vida quotidiana, social e política, está claro que nestas condições a nossa situação depende da boa vontade dos muçulmanos e do sistema islâmico. Não é de surpreender, por isso, que a questão tenha ocupado uma grande relevância.
O senhor é de origem egípcia, mas vive no Líbano e é especialista em islamismo. Como é a sua relação com os muçulmanos?
Faço uma distinção entre os muçulmanos tomados singularmente e os sistemas islâmicos, simplesmente porque com os muçulmanos tomados singularmente é possível instaurar um belíssimo diálogo e um intercâmbio cultural e religioso.
Permita-me que conte um episódio que confirma isso: há alguns dias contactou-se no Skype [telefone na Internet] um muçulmano sunita do norte do Líbano, a quem encontrei casualmente num voo há um mês. O nosso diálogo concentrou-se na Trindade e na oração. Durante a conversa, ele disse-me: “Doutor, gostaria de lhe apresentar a minha esposa”. No Oriente, este gesto quer dizer que você já faz parte da família. Portanto, o muçulmano tomado singularmente – paradoxalmente – é muito mais próximo de nós, cristãos orientais, do que um cidadão europeu. Há um sentido religioso que nos torna parecidos e nos une.
Mas se temos de falar do islamismo, o discurso muda radicalmente, porque se trata de um projecto político de fundo religioso. Como cristãos orientais, gostaríamos de ser tratados simplesmente como cidadãos com uma Constituição que transcendesse todas as religiões. Mas na maior parte dos casos, nos nossos países, a Constituição baseia-se essencialmente – quando não totalmente – na lei islâmica. Este é o nosso problema. Exceptuando poucos casos como o do Líbano, os Estados, inclusive constitucionalmente laicos, como seria o caso da Tunísia, da Síria ou da Turquia, são culturalmente países islâmicos e privilegiam os cidadãos de religião muçulmana.
Qual é o eixo principal do crescimento do islamismo político e do fundamentalismo islâmico?
Por um lado há uma onda islamista que nasce no início dos anos 70. A partir de 1973, aconteceu um fenómeno económico, após a guerra entre Israel e os países árabes, que fez o preço do petróleo quadruplicar em poucos meses. Assim, os países petrolíferos depararam com uma montanha de petrodólares. A Arábia Saudita, não sabendo o que fazer com esta imensa fortuna, empregou uma grande parte na construção de mesquitas e escolas islâmicas. A Arábia Saudita financiou os Irmãos Muçulmanos no Egipto com um projecto claro: islamizar a sociedade egípcia porque não era suficientemente muçulmana. Depois, fez a mesma operação em todos os países do Médio Oriente. Assim, no início dos anos 80, os Irmãos Muçulmanos tornaram-se tão numerosos que começaram a ser considerados um perigo na Síria. O presidente sírio Hafiz al-Asad subjugou-os com força.
A Indonésia, há um par de décadas, era considerada um paraíso da liberdade religiosa num país muçulmano. Muitos sacerdotes eram ex-convertidos do Islão. Agora este fenómeno é impossível. O mesmo na Nigéria: na última década, o número de províncias que aplicam a lei islâmica aumentou de 4 para 12. A Europa, com quase 5% de muçulmanos, sente-se invadida e ameaçada.
Assim, a chanceler alemã, Angela Merkel, lançou um alarme há poucos dias, anunciando o fracasso do modelo de integração, porque são precisamente eles os que não se querem integrar. Por que não se integram? Porque têm um projecto religioso, enquanto os Estados nos quais vivem têm projectos nacionais não religiosos.
Perante esta situação tão complexa e crítica,o que fez o Sínodo dos Bispos e o que pretende fazer?
Nós, cristãos do Oriente, vivemos no meio deste fenómeno em curso, onde o Islão ganha terreno dia após dia, ao ponto de na Liga Árabe o primeiro tema ser sempre este: como enfrentar o islamismo. E o Sínodo dedicou particular atenção à relação com o Islão. As sessões sinodais questionaram sobre por que razão as pessoas deixam sua própria terra. No mundo árabe, não há perseguição contra os cristãos, mas há discriminação. Os cristãos não são tratados da mesma foram que os muçulmanos. Estes são cidadãos normais destinatários das leis. Os demais, constitucionalmente são cidadãos, mas concretamente as leis – já que estão feitas a partir do sistema muçulmano – deixam aos cristãos uma condição de desvantagem. Além disso, a liberdade de consciência é inexistente, existe só a tolerância, que consiste em suportar que o cristianismo permaneça na terra islâmica, mas com muitas limitações. Por outro lado, não é possível abandonar o Islão para aderir a outra religião. Essas questões estiveram no centro da atenção dos padres sinodais.
Há um caminho de solução?
Só há um, apontar para certos conceitos compartilhados, como o de “cidadania” ou o de “pertença árabe”, ambos reconhecidos por grande parte dos muçulmanos. Os movimentos que promoveram estes valores no início do século XX tiveram êxito porque levavam consigo um sopro de novidade que convidava a sair da visão tribal. Mas ultimamente esta visão tem sido entrincheirada e substituída pelo conceito de Umma (a nação) islâmica. Durante a presidência de Nasser, no Egipto, até meados dos anos 70, o conceito era a Umma al-Arabiyya [a nação árabe], mas da segunda metade dos anos 70 em diante prevaleceu o conceito da Umma al-Islamiyya [a nação islâmica], que não deixa espaço para os não muçulmanos. A solução é tentar propor, muçulmanos e cristãos, um conceito moderno de Estado, não só no âmbito político, mas também no cultural.
Como fazer para concretizar essa proposta?
Precisamente aqui entra a proposta do Sínodo para o Oriente Médio: não se trata de fazer um projecto cristão, e muito menos um projecto dos cristãos ou para os cristãos, porque assim reflectiríamos como se fôssemos uma minoria que se tenta proteger. Nós não tentamos proteger-nos. O que dizemos reflecte também a palavra de muitos muçulmanos, que reconhecem como nós que a nação árabe está mal porque sofre de uma falência no exercício da democracia, na distribuição das riquezas, no estabelecimento da justiça social e de um Estado de direito, na reforma do sistema de saúde.
O Islão é muito sensível a essas dimensões. A liberdade de consciência e de expressão é desejada por muitos, não porque as pessoas se queiram afastar do Islão, mas porque querem viver o Islão de modo mais pessoal. No mundo islâmico, há um sentido de modernidade e de liberdade que não se atreve a manifestar-se. Um cristão pode escrever criticando seu patriarca ou bispo, enquanto é difícil que um muçulmano o faça. Não porque alguém em particular o proíba, mas porque a própria cultura o impede. Os ímanes são os ulemás [os doutos] e o seu saber não se discute. Reafirmo que com essas propostas não se trata de fazer com que os muçulmanos sejam menos muçulmanos ou os cristãos menos cristãos, mas dizer que a fé é uma questão pessoal, ainda que tenha a sua dimensão social, e que cada um deve viver a própria fé como Deus lhe inspira.
