À Luz da Palavra – 5º Domingo da Páscoa – Ano A A liturgia deste domingo convida-nos a reflectir sobre a comunidade que nasce de Jesus ressuscitado, a Igreja. A segunda leitura chama-lhe “templo espiritual”, do qual Cristo é a “pedra angular” e os cristãos “pedras vivas”. Pedro afirma que esta Igreja é “uma geração eleita, um sacerdócio real”, cuja missão é oferecer a Deus o verdadeiro culto. Esta afirmação favorece a tomada de consciência sobre a nossa condição de novo povo de Deus, saído das águas do Baptismo, adquirido pela mediação de Jesus Cristo. Apesar desta carta ser quase tão antiga como a existência do cristianismo e de o concílio Vaticano II ter “restituído” ao povo de Deus, maioritariamente constituído por fiéis leigos/as, a sua dignidade de “sacerdócio santo, destinado a oferecer sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por Jesus Cristo”, o certo é que nós, cristãos e cristãs, não ordenados/as, temos dificuldade em nos compreendermos e em termos consciência de que podemos e devemos oferecer a Deus o culto espiritual da nossa existência, porque em Jesus foi inaugurado o sacerdócio existencial. A maior parte das vezes relegamos para os presbíteros, a quem chamamos indistintamente “sacerdotes”, a dignidade e os atributos que são pertença de todo o povo santo de Deus.
No Evangelho, Jesus sacerdote apresenta-se como o caminho, a verdade e a vida. Ele é o único mediador, no qual todos temos acesso ao Pai. Não temos que ficar detidos/as “às portas do templo”, como se fôssemos impuros/as, para implorar a graça, através dos que receberam o sacramento da ordem, à maneira do Antigo Testamento, porque todo o cristão e cristã está numa situação de imediatez radical face a Deus. A mediação do sacerdócio ministerial, sendo necessária e legítima, deve ser compreendida a partir da situação cristã. Também é no sacerdócio comum que se enraíza a nossa capacidade de participar activamente na liturgia, de anunciar a Palavra de Deus e de servir a comunidade cristã e humana.
A primeira leitura dá-nos conta de como nas primeiras comunidades cristãs as pessoas mais responsáveis sentiram a necessidade de repartir tarefas, para que a Igreja crescesse pelo bom exercício de todos os carismas. Hoje, todos nós, bispos, presbíteros, diáconos, cristãos e cristãs – homens e mulheres – somos chamados/as a repensar a pastoral das nossas comunidades, a descobrir o verdadeiro lugar e o modo de integração de cada um e de cada uma e a compartilhar os diversos serviços e ministérios, de acordo com a nossa vocação específica, para a Igreja se aproxime cada vez mais do projecto de Jesus, do seu sonho e da sua prática. Ele é sempre o pastor supremo da Igreja, seja qual for o seu representante visível na terra.
Leituras do 5º Domingo de Páscoa
Act 6,1-7; Sl 33 (32); 1 Pe 2,4-9; Jo 14,1-12
Deolinda Serralheiro
