O nosso Jornal Pois foi, fiz gazeta na semana passada e perdemos uma boa conversa sobre «O Correio» do dia 27, como sobre o casamento de não crentes e se as leis e papéis assinados é que fazem ou garantem o amor, ou se um casamento é bom só por ser «abençoado» na igreja, se um ritual substitui o amor a sério… e onde é que Deus está presente no meio de tudo isto…
Quanto ao que apareceu no dia 6, nem há tempo para falar de política (22)… Até porque os políticos e outras grandes figuras têm muito a aprender com o acto corajoso e perturbador de Bento XVI, um homem que se remeteu à beleza, austeridade e «silêncio» do «deserto» – onde nos podemos sentir libertos para nos abrirmos ao transcendente (de tudo isto se fala a propósito da Quaresma e do encontro com a artista Emília Nadal, nas páginas 2, 3 e 4). Foi pena que só no «Correio» do dia 27 é que se deu destaque a uma opinião que referia as sombras sobre o papado de Bento XVI – mas é sobretudo a política do Vaticano que está em questão. Na vida, e particularmente no desempenho das nossas funções, há sempre sol, nuvens, noites escuras e tempestades. Mas olhe que mesmo em pleno sol, a «procura da verdade» pode seguir caminhos tortuosos ou, como no deserto, pôr-nos a andar à volta do mesmo sítio. O que é mau, isso sim, é teimar que se vai na boa direcção e arrastar muita gente para um impasse, como alerta S. Mateus no cap. 15 do seu evangelho (vinha a jeito aplicar a certos políticos…). É por isso que precisamos de trocar ideias com as pessoas e comunidades que se cruzam connosco, procurando usar a mesma linguagem, guardando tudo o que é fundamentado e nos obriga a rever as nossas posições (24). Nós sabemos como dá jeito, ao poder instituído, afirmar que é «infalível» e impor certos esquemas de pensamento como «dogmas». Mas a importância dos dogmas é relativa ao momento histórico em que nasceram, aos problemas de então e aos conceitos disponíveis. Não acha que nunca podemos parar de «procurar a verdade»? Aquela Verdade que «só se senta à porta de quem a procura desde o amanhecer» até ao fim da vida (é muito linda esta passagem do Livro da Sabedoria, no cap. 6). Não basta, e até pode ser enganosa, a «intensidade e coerência das palavras» (15), sem a humildade científica e religiosa. E nem o Papa pode pretender dar a versão perfeita da «Vida de Cristo»: tem pela frente o «politicamente correcto» do núcleo duro do Vaticano, o que torna mais difícil procurar humildemente a verdade, como o fazem os teólogos honestos, sem medo de pôr em questão ideias feitas e estruturas seculares. Cristo só se deixa ver por quem o procura e não por quem afirma que «está ali ou acolá» (Mateus 24,23). Nós não somos «de Paulo ou de Pedro» mas de Jesus Cristo» (1.ª carta aos Coríntios 1,12). O grande teólogo Hans Küng não concorda com o centralismo do Vaticano e com a pretensão a «infabilidade»; procura, sim, levar-nos ao encontro de Cristo a partir dos nossos problemas actuais, sem os iludir, e das nossas tentativas para os resolver. Mas grande parte da hierarquia católica nem lhe quer dar atenção, perdendo um valioso contributo para encontrar o bom caminho – e esquece que a organização social da Igreja é humana, a ser orientada pela chama divina presente em cada cristão. As nossas «posições» não podem ser levadas a sério se não levamos a sério as «oposições». Que me diz?
M.A.V., o Carteiro (que não distribui o acordo ortográfico)
