A propósito do órgão de tubos da Sé, em construção (2) JÕÃO GAMBOA
Está ali, incrustado na parede e meio suspenso, há muitos anos. E reduzido ao silêncio, apesar da bela fachada. Como um colorido mas embalsamado pintassilgo. Ou como um rouxinol triste, emudecido dos seus gorjeios e cantares.
Nas minhas insónias, às vezes surpreende-me com os seus desabafos.
– Estou aqui esquecido e desprezado, sem voz para cantar. As pessoas que são daqui já nem olham para mim; sabem que não canto e não me ligam. Os que vêm de fora olham-me com enlevo, admiram o meu rosto, que dizem ser belo, e imaginam o júbilo e o deslumbramento do meu canto. Enganam-se, coitados. Mas eu não tenho culpa.
– Pois não! – apoio eu, oferecendo-lhe algum consolo, mas sem estar seguro de que ele me ouve, pois imagino que, se já não tem voz, também terá perdido o ouvido.
É já bastante velho – tem mais de 250 anos – o velho órgão histórico da Igreja de Nossa Senhora da Glória, pois data de 1754. Colocado sobre as duas portas góticas reconstruídas em 1976, que dão passagem para a sacristia atual, teve anteriormente outras localizações e está ali desde essa data. Sofreu grande remodelação em 1883, que o beneficiou e lhe conferiu um som brilhante. Em 1976 foi totalmente revisto e bastante enriquecido. O fole manual foi substituído por turbo-insuflador; recebeu três meios-jogos de madeira: bordão-aberto, de dezasseis pés, flauta doce, de oito pés, e flautado, de quatro pés; e foi-lhe aplicado um segundo teclado, ficando provido de um tutti e órgão positivo. Lembro-lhe esta sua história e sabe o leitor o que me diz?
– Sofri muito ao longo da minha vida. Mudaram-me de local, intervieram no meu organismo aplicando-me próteses, dotaram-me de novas cordas vocais, modernizaram o meu funcionamento… Tudo aceitei com um único objetivo: cantar melhor, para melhor louvar o Criador e melhor sustentar o canto do povo crente.
Digo-lhe que, de facto, muitas gerações de fiéis beneficiaram da sua beleza sonora e com a sua ajuda elevaram o coração e a voz em festa ao Senhor.
– É verdade! E sinto-me muito feliz por isso – responde-me, entusiasmado. – O período de que melhor me lembro são os anos a seguir a 1976. O templo foi ampliado e ficou muito belo. Muito cantei nesses anos, muitas mãos me tocaram e eu exultei e fiz exultar de alegria. A Catedral de Aveiro renovada era uma primavera branca de flores e aleluias pascais.
– Agora está aí, jubilado, tendo já ganho direito ao descanso – acrescento, a sossegá-lo.
– Talvez, pois parece ser essa a vontade dos homens.
– De facto, os entendidos optaram por não o restaurar e decidiram-se por um órgão novo, moderno, construído de raiz, mais capaz de servir esta bela casa de Deus.
– Eu sei… Aqui do meu canto vou observando tudo e estou a par do que se passa. Já vejo, além, o esboço da face do meu sucessor. E promete!
– E não está magoado?
– Claro que não. Até rejubilo. Anseio mesmo pelo dia em que ele se apresentará em todo o seu esplendor sonoro. Nesse dia, cantarei com ele, no meu íntimo e em silêncio…
Fiquei satisfeito com este desfecho. Uma grande alma dá sempre lugar a outra grande alma.
E esse dia já não está longe, é daqui a menos de cinco meses. Até lá cumprem-se as etapas previstas e os nossos corações vão aumentando de expetativa e curiosidade. Sobretudo vão aumentando no amor ao órgão de tubos, por tudo o que ele significa e representa e por tudo o que ele vai ser para a Liturgia e para a cultura em Aveiro, alimentando a espiritualidade de muita gente.
O órgão de tubos é o instrumento musical que em si concentra mais vozes e cores sonoras, indo da mais celestial suavidade à mais poderosa, imponente e arrebatadora força sonora.
O seu rosto, a sua fachada é sempre artística e às vezes majestosa. A cara deixa entrever a riqueza do coração.
Mais que todos os outros instrumentos, o órgão de tubos é ressonância de toda a Criação. O reino mineral está presente nos tubos de estanho, de cobre (e às vezes de prata e ouro); o reino vegetal marca presença nos tubos de madeira feitos das árvores da floresta (algumas muito raras e preciosas); o reino animal manifesta-se e associa-se nas peles dos foles, que são os pulmões do órgão. O órgão de tubos é, portanto, um instrumento cósmico. Ele canta, em nome de toda a Criação, em nome do Cosmos, o grande hino de louvor, o grande magnificat ao Criador.
Por tudo isto, a Igreja dá-lhe lugar de relevo na Liturgia.
