O caso das balanças falsas

A Árvore de Zaqueu Será legítimo que os pobres e humildes falseiem as balanças para tirar proveito quando negoceiam contra aqueles «que espezinham o pobre e querem eliminar os humildes da terra» (1.ª leitura)?

É proibido falsear as balanças – mas há quem tenha a arte e o poder para entortar o fiel da balança. Pior: a própria lei está por vezes tão torta que não nos podemos fiar nela.

Desde há milénios que a sociedade humana faz exercícios de convivência com a injustiça. Promulgam-se leis sobre leis, mas todas elas são fonte de novos falseamentos e acabam por acarretar uma profunda falta de respeito por tudo o que seja lei.

Jesus e os seus seguidores preocuparam-se muito com esta questão, na linha dos principais autores do Antigo Testamento.

A lei é tanto mais necessária quanto mais somos incapazes de amar. Por isso S. Paulo (Carta aos Romanos, 7-8) disse que a própria lei de Moisés acaba por ser sobretudo um «código dos pecados». A abundância de leis afoga-nos de tal maneira, que nos impede de ver o que é bom e o que é mau, e confunde o espírito das pessoas honestas. Já no séc. XII, S. Bernardo escrevia: «Se queres ser obedecido, manda pouco».

Voltando a S. Paulo, vemos como ele se insurge contra os legalistas – hábeis, aliás, em entortar o fiel da balança. Jesus e os profetas antigos diziam que a lei não vale nada sem «um coração de carne» – um coração que ama e que portanto faz tudo muito melhor e mais criativamente do que os preceitos escritos no papel.

Não é verdade que hoje em dia preferimos esquecer a difícil mas fundamental reflexão sobre o mal e o bem, para nos preocuparmos sobretudo com «o que está escrito», fugindo à responsabilidade de pensar? É por isso que há cada vez mais formas sofisticadas até de matar – aproveitando-se os buracos, omissões e ambiguidades da lei. Que fazem os poderosos que só pensam no seu crescimento económico, esquecendo os milhões de pessoas que pagam com a vida o “sucesso vil” desse programa? Desastres ecológicos, genocídios, terrorismo violento… não interessam enquanto não os atingem directamente. E por esses pobres e humildes espezinhados, quem fará três minutos de silêncio?

No evangelho de hoje, um administrador falseou as contas. Para nosso espanto, Jesus louvou-o – porque apesar de desonesto, utilizou o dinheiro para o melhor fim: ajudar os outros e solidificar relações humanas capazes de aguentar as incertezas do futuro.

Várias vezes, os evangelistas relatam palavras e até acções de Jesus que não jogam bem com os nossos mais honestos conceitos de justiça. Chama-nos a uma visão mais abrangente do que é a aventura humana. Por outro lado, faz-nos ver que a «justiça» é muitas vezes opressora dos «outros» – daqueles que são menos «espertos» ou mais desfavorecidos.

Jesus mostra a fraqueza dos nossos «pensamentos direitinhos», quando não motivados por querer que haja mais trigo do que joio, por querer sustentar as razões de esperança de que vale a pena viver.

«O dinheiro é vil», quando nos leva a desprezar os outros – e isto é que é desprezar Deus.

O bem que fazemos aos outros, com ou sem dinheiro, é que nos alenta perante a própria morte e nos tira o medo de uma vida desconhecida, sem as chatices das papeladas de finanças.

É mais fácil só olharmos para o interesse imediato e não ver como dependemos todos uns dos outros. Não haverá uma pontinha de ironia no comentário de Jesus sobre aqueles que não procuram novos caminhos de justiça nem formas engenhosas de responder aos problemas actuais, refugiando-se no quietismo e ignorância de um cantinho supostamente iluminado?

Não é só condenável usar uma balança falsa: até uma balança exacta é muito mal empregada, quando, com ela, apenas damos peso ao interesse próprio.

Manuel Alte da Veiga