Vida mística

Poço de Jacob – 48 A vida mística não é um privilégio de alguns. É dom de Deus para todos. Enquanto a ascese, sem deixar de ser dom, implica o nosso esforço na subida, o nosso esforço de auto-educação, penitência, mortificações e abnegações. A mística é deixar Deus fazer. Não é atitude passiva. É atitude de dispor-se para o que Deus quiser fazer de mim. Implica abandono, confiança em Deus e valorização das nossas capacidades e faculdades, para sermos instrumentos aptos nas mãos de Deus.

É Deus quem opera em nós – diz a Bíblia. S. Bento dizia na sua regra: “Nada antepor a Cristo”. S. Paulo dizia ter sido alcançado por Jesus Cristo. Jeremias dizia que o Senhor o seduziu e ele deixou-se seduzir. Aí radica o segredo da vida autenticamente espiritual.

O homem, por si, nada pode. E com Deus pode tudo. As nossas obras nada valem e nele têm valor infinito por sermos membros do corpo místico de Cristo, ou seja, o corpo que se deixa conduzir pela cabeça que é Cristo.

Quando perguntaram à Lúcia de Fátima o que era a penitência ascética da mensagem, Lúcia, sem negar o valor de todas as expressões de penitência vivida pelos pastorinhos e, hoje, pelos peregrinos de Fátima, disse: A penitência de Fátima é o esforço que cada pessoa tem de fazer para cumprir perfeitamente as suas obrigações, o seu dever de estado. Aí está o segredo da vida cristã, que também foi a norma de vida de Nossa Senhora: Fazer o que Jesus nos disser, fazer a vontade do Pai, naquilo que depende de nós, o dever, e naquilo que não depende de nós nas encruzilhadas da vida. Por isso, se diz que a vida mística de uma pessoa deve sublinhar três aspectos. Primeiro: trabalho e oração, aspecto que moveu a vida dos monges que fundaram a Europa, os beneditinos, “ora et labora”. O trabalho como dever e a oração que nos informa na força do Espírito que dá vida, para que esta tenha frutos.

Abraçar a cruz é o segundo ponto, bem claro na palavra de Jesus: Pegar na cruz para o seguir.

E finalmente: Conservar a alegria. O homem místico não tem razão para estar triste, pois sente-se amado por Deus e conduzido por Ele, como diz a Bíblia: O justo não teme notícias funestas. Sabe que faz parte de uma família espiritual que também pode fazê-lo sofrer, mas onde nada se perde à luz de Cristo, e sente que sua vida é útil, pois colabora com Cristo na salvação do mundo. Sabe que é miserável, mas, por isso mesmo, beneficia da misericórdia do Senhor. Sabe que é ofendido, se é que alguma fez se possa sentir ofendido, e isto é propício para exercitar o perdão de Cristo para com quem o ofende. Sabe que sua oração é o melhor contributo que pode dar a si mesmo e ao mundo e que isto o forma para viver de amor. Por isso, vê a beleza das coisas e das pessoas e a mão de Deus amorosamente presente em toda a sua vida.

Publicou-se um livro nas edições Paulinas que recomendo vivamente. Termino este artigo com o título do livro: “Porque não ser místico?”

P.e Vitor Espadilha