Poço de Jacob – 24 Quem já foi a Ars ou a Lourdes, vê cemitérios deploráveis. Lápides negras e pesadas, abandonadas há décadas, semidestruídas, sem flores ou velas. No mês de Novembro, ou em cada sábado, vemos os nossos cemitérios brilhantemente tratados com lixívia, arranjos caríssimos, adornos de bijutaria… É a nossa cultura, diferente da dos outros. Somos assim como eles são do seu modo de ser. Mas, tenho grande veneração pelo cemitério de Ars. Tipicamente francês. Pesado, abandonado, triste. Mas foi, talvez, o único cemitério do mundo identificado com o Paraíso. Foi o Cura de Ars quem o disse: “Meu cemitério está povoado de Santos”. Aí está a verdadeira beleza do cemitério de Ars. Ali procuramos a campa daquele menino que apontou a João Maria Vianney o caminho de Ars, quando ele se perdera com o nevoeiro, na sua chegada à paróquia onde exerceria o seu ministério: “Tu mostras-me o caminho de Ars e eu mostro-te o caminho do Céu” – foi a recompensa do Cura de Ars, que, um dia, presidiu ao seu funeral, feliz por se despedir de um santo. E aquele a quem o Cura de Ars interpelou, pois o homem, todos os dias, deixava suas alfaias agrícolas à porta da igreja e se mantinha em oração silenciosa, horas a fio. Tinha ouvido o seu pároco apontar o Sacrário e dizer: “Ele está ali…” Então ali estava o bom homem. Interpelado por João Maria Vianney, o idoso disse que não fazia nada ali. Somente isso: “Ele olha para mim e eu olho para Ele”. No seu funeral, o Cura d’Ars vibrou de gratidão por ter mais um santo no Céu. E outros tantos… Por isso, eu digo: Bendito cemitério de Ars, que não tens flores em abundância nem velas… e muitos dos nomes desapareceram com os ossos que viraram pó. As tuas campas não cheiram a detergente ou lixívia, nem tens lápides de saudade eterna – que é a maior asneira que se pode dizer de um morto. Se as saudades são eternas, isto significa que nunca mais nos voltaremos a ver… Eu te bendigo, cemitério de Ars, porque a tua terra não está cheia de corrupção, mas de grãos de trigo que darão fruto a seu tempo. Eu te bendigo, porque as tuas campas escondem relíquias de homens e mulheres que souberam aprender com o seu pároco o caminho do céu. Eu te bendigo porque passeando na tua aridez aprendemos o que verdadeiramente importa. Aprendemos que apesar de a morte ser inevitável para o bom e para o mau, o santo brilha com estrela para a eternidade, como diz o Livro da Sabedoria. E tu és uma via láctea de amor e fé, de histórias completas, que, por terem sido fiéis a Deus, são História de Salvação. Bendito o cemitério de Ars, que contém a mensagem de que podemos esquecer a campa dos nossos mortos, podemos encontrar corpos em valas comuns ou no fundo dos oceanos, que o homem não morrerá jamais. O santo vive eternamente. Tu não falas da morte. Tu celebras a vida. E bem mereces o nome de Campo Santo.
P.e Vitor Espadilha
