Um banho de verdade

Dez palavras-cahve sobre a “Caritas in Veritate” Quando surgiu a “Caritas in veritate” (“A Caridade na verdade”, ou simplesmente CV), publicada no dia 29 de Junho de 2009, por uns momentos houve quem hesitasse no seu nome: “Caritas in veritate” ou “Veritas in caritate”? Na realidade, esta última expressão, “a verdade na caridade”, tem sido usada com frequência em contexto eclesial, desde que São Paulo a cunhou na Carta aos Efésios 4,15. E, há que dizê-lo, é um uso que por vezes fere a verdade. Quando alguém quer dizer “a verdade na caridade”, ou adia a verdade (na espera de melhores circunstâncias) ou estilhaça a verdade (dando a parte pelo todo) ou amacia a verdade (adaptando-a, com medo de ferir o destinatário). Compreende-se, mas a verdade sai maltratada. A “verdade na caridade” só fará sentido quando, mantendo o amor, não se é infiel à verdade.

Bento XVI vem travando um combate pela verdade. Logo no início do pontificado (e já como bispo e cardeal) escolheu o relativismo como alvo. A nível popular, o relativismo nota-se quando alguém se considera definidor da sua própria moralidade, senhor da sua própria verdade (com base na vontade, nos caprichos, no “dá jeito” ou no “apetece-me”). A nível académico, resume-se na defesa da impossibilidade de uma verdade objectiva (por causa da história, das circunstâncias, da impotência da razão ou mesmo do pretenso “totalitarismo da verdade”).

Bento XVI diz que é necessário conjugar a caridade com a verdade na direcção assinalada por São Paulo mas também na direcção inversa e complementar. “A verdade é a luz que dá sentido e valor à caridade (…). Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo. O amor torna-se um invólucro vazio, que se pode encher arbitrariamente. É o risco fatal do amor numa cultura sem verdade; acaba prisioneiro das emoções e opiniões contingentes dos indivíduos, uma palavra abusada e adulterada, chegado a significar o oposto do que realmente é” (n.º 3). Encontrar no nosso tempo exemplos do que Bento XVI afirma é muito fácil: ondas de solidariedade que duram apenas enquanto as catástrofes estão na televisão; projectos legislativos baseados no bem particular e não no bem comum e em que o valor de uns indivíduos vale mais do que o de outros; direitos dos animais a valerem mais do que os humanos; capital mais protegido do que o trabalho humano, etc.

“A verdade, fazendo sair os seres humanos das opiniões e sensações, subjectivas, permite-lhes ultrapassar determinações culturais e históricas para se encontrarem na avaliação do calor e substância das coisas” (n.º 4).

Precisamos de um banho de verdade. Seria interessante que o crivo da verdade descesse desta carta circular e chegasse a todos os âmbitos sociais e eclesiais. Provocaria alguma dor. Mas como sabemos, a verdade liberta (Jo 8,32).

J.P.F.

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