O Céu no dizer de uma Carmelita

CARMELITAS DESCALÇAS DO CARMELO DE CRISTO REDENTOR

O céu! O que é o céu? Creio que esta é uma das perguntas que cada um de nós se faz. Pergunta à qual respondemos a medo com um balbuciar de palavras, com sussurros de eternidade que não são mais do que murmúrios com que o nosso coração expressa a sua ânsia de Deus, a ânsia de infinito. O céu é algo que desejamos intimamente, mesmo sem o querermos desejar, mesmo sem sabermos o que é… Sim, o céu é mais do que o azul que paira sobre as nossas cabeças. É mais do que a realidade exterior que os nossos olhos vêm. O céu é daquelas realidades que só se vêem bem com o coração. Mas disto são testemunha todos aqueles que decidiram viver na sua vida o “céu antecipado”.

Isabel da Trindade, uma carmelita descalça, que apenas com 26 anos atingiu a plenitude da vida, é uma dessas pessoas que decidiu viver o “céu na fé”. Ela define o céu como “a casa do Pai”, e continua dizendo que o Pai “ali nos espera como se esperam os filhos queridos que voltam ao lar depois do desterro”. Ela sabe bem que, por nós mesmos, nunca poderíamos chegar à casa do Pai e, por isso, não poupa palavras para nos dizer que “para nos levar para aí fez-se Ele mesmo nosso companheiro de caminho”.

A beleza que estas palavras en-cerram é a beleza escondida da vida de cada carmelita e de cada ser humano. Aquilo que os nossos olhos não vêem, mas que a nossa fé nos diz ser verdade. Se o céu é a casa do Pai, e se Ele aí nos espera, então nós somos seus filhos, filhos muito queridos, e sinal disto é que Ele mesmo se fez nosso “companheiro de caminho”. Longe de pensarmos no céu como um lugar, como um lar que no fim da vida alcançaremos, ele é-nos oferecido já, aqui e agora, no momento em que aceitemos ter por “companheiro de caminho” Aquele que se fez igual a nós, para que um dia pudéssemos ser iguais a Ele, filhos na casa do Pai.

Mas Isabel vai mais longe e diz-nos que no céu cada um de nós é um “louvor de glória ao Pai, ao Verbo e ao Espírito Santo, porque cada um está ancorado no puro amor e não vive já da sua própria vida, mas da de Deus. Então conhecemos, segundo diz S. Paulo, como somos conhecidos por Ele; noutras palavras, o nosso entendimento é o entendimento de Deus, a nossa vontade é a de Deus, o nosso amor o próprio amor de Deus. É o Espírito de amor e de força quem transforma realmente a alma”.

A nossa vocação, no céu, será louvar incessantemente a glória do Pai, do Filho e do Espírito Santo, porque viveremos da vida de Deus. Na terra, desde que o Verbo do Eterno Pai se fez nosso “companheiro de caminho”, a nossa vocação converteu-se em “manifestação da glória de Deus”, quero dizer a nossa vocação é viver o céu antecipado, o céu na fé, o céu que surge da comunhão de vida com Deus. As palavras de Jesus, nos Evangelhos, confirmam-nos nesta vocação. Ao falar de diferentes pessoas e situações Jesus diz: “…É assim para que se manifestem nele as obras de Deus” (Jo 9,3). Ou ainda: “Esta doença não é mortal, mas é para a glória de Deus; para que o Filho de Deus seja glorificado por ela”(Jo 11,4). Deus celebra com cada carmelita e com cada crente o memorial das suas mara-vilhas. Memorial que “encarna” em todos nós como manifestação da glória da sua graça.

O caminho para a casa do Pai é um caminho de manifestação da vida de Deus. Isto exige de nós a abertura e a aceitação da presença de Deus nas nossas vidas, para que Ele actue em nós e através de nós, e, nós possamos viver ancorados, pela fé, no puro amor, que é Ele, participando já na sua vida.

E participar na vida de Deus é conhecer como Deus nos conhece. Se bem nos lembramos, aquilo que nos afastou de Deus, e que o livro de Génesis relata no capítulo terceiro, foi o desejo de “ser como deuses”, de ser “conhecedores do bem e do mal” e de “adquirir inteligência”. Pois bem, regressar à casa do Pai passa por ir conhecendo como Deus conhece, e a fonte do conhecimento de Deus é o Amor. O Amor revela-nos, não só a nossa verdade, mas a verdade de todas as coisas. O Amor é o outro lado da nossa vida, o lado divino pelo qual Deus nos con-templa. A glória de Deus está em amar-nos e em nós nos tornarmos manifestação da Sua glória pelo simples acto de nos deixamos amar, de deixarmos que Ele nos olhe e olharmos para a vida, para o mundo e para os irmãos com o Seu mesmo olhar. Conhecer como Deus conhece não é ter muitos conheci-mentos. Conhecer como Deus conhece é conhecer em Deus, é conhecer em Amor e Misericórdia, porque é assim que Deus olha para cada um de nós: na ternura de um Pai que nos oferece a Sua misericórdia, na fraternidade de um irmão que é Filho e nos dá a Sua graça, e na unidade de um mesmo e único Espírito de Amor que em nós gera comunhão.

“É o Espírito de amor e de força quem transforma realmente a alma”. Aqui reside o segredo de viver, já, o céu na fé. A força amorosa do Espírito é quem nos abre à presença do Deus Vivo, actuante na história e no mundo. S. Paulo fala desta força amorosa com que o Espírito de Deus se quer manifestar em cada um de nós, dizendo: “Vós não rece-bestes um espírito de escravidão para recair no temor, mas um espírito filial pelo qual clamamos: Abbá! Pai! O próprio Espírito dá testemunho ao nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rom 8,15-16).

Isabel, porque experimenta na sua vida essa força amorosa do Espírito, que lhe diz que é filha de Deus, afirma que a sua missão no céu será continuidade do seu céu na terra. “A minha missão no céu consistirá em atrair as almas, ajudando-as a sair de si mesmas para se unirem a Deus mediante um movimento simples e amoroso, e guardá-las nesse grande silêncio interior que permite a Deus imprimir-se nelas, transformando-as n’Ele mesmo”. Ela considera como sua missão: o fazer-nos viver o céu na terra, atraindo-nos para a vida de comunhão com Deus, através de um movimento simples e amoroso – a fé. Acreditar, Deixar-se Amar e Amar. O céu na fé é esse movimento amoroso de Deus se ir imprimindo em nós, tirando-nos para fora dos nossos pequenos e estreitos mundos, transformando-nos n’Ele mesmo.

Se conhecêssemos a beleza que a presença de Deus imprime às nossas vidas, estou certa que não perderíamos tempo à procura de falsos “céus”. De “céus” que pouco duram e depressa se acabam, deixando-nos com a sensação de que o céu não existe. Se aceitássemos o desafio de viver já agora o céu na fé, não teríamos dúvidas em dizer o que é o céu, porque o céu é o “Grande Encontro” feito de pequenos encontros diários.

E no céu da fé existe apenas uma atitude válida, a da gratidão. A acção de graças por Deus Pai nos ter feito nascer para viver no céu. “É necessário dar-Lhe graças sempre, suceda o que suceder, pois Deus é Amor e só actua por amor”.

À luz de Deus, conhecemos as coisas na sua verdade: que vazio es-tá tudo o que não foi feito por Deus! Ao constatar esta realidade no céu da sua alma, onde Deus habita, a Irmã Isabel suplica a nossa atenção: “Queria que todos me ouvissem, para lhes dizer a vaidade e o nada de tudo o que não se faz por Deus. Peço-lhe que marque tudo com o selo do amor. Isso é o único que fica”.

Se cada dia que passa conseguirmos que Deus cresça em nós, saberemos que já estamos no céu, porque viveremos já o céu na fé, em comunhão com todos os que já estão na casa do Pai e com Ele nos esperam.