Reflexão Imagino a cara de espanto de todos aqueles judeus piedosos e forasteiros que foram ao Templo naquele dia, entraram no Pórtico e se depararam com Aquele homem, munido de um chicote de cordas, a derrubar as mesas, a dispersar os bois e as ovelhas preparados para os sacrifícios, a enxotar as pombas para o cumprimento das promessas e a espalhar as moedas pela calçada… Talvez admiração, talvez escândalo e até alguma raiva se terão apoderado dos presentes. Afinal, que vem a ser isto, terão perguntado uns? Quem se atreve a tal cometimento, terão dito outros? E com que autoridade é capaz de fazer uma coisa destas, interrogavam os fariseus? E também nós nos podemos perguntar: afinal, um Jesus manso, pregador do amor fraterno até às últimas consequências, a imagem transparente do Pai, o amigo dos pequenos, dos doentes e dos pecadores, tolerante para com todos e “mete-se” numa coisas destas munido de um chicote de cordas!
O Templo de Jerusalém era o lugar mais santo dos judeus, o sinal de unidade e orgulho de um povo, para quem uma palavra sacrílega contra o Templo era considerada uma falta grave merecedora, inclusive, da pena de morte; o Templo tantas vezes construído e destruído chorado e ansiado ao longo dos séculos, cuja última reconstrução tinha durado quarenta e seis anos! Que novidade ou que escândalo estava ali?
A cena descrita por João é partilhada também pelos ou-tros evangelistas, mas com uma pequena – grande – diferença: os sinópticos colocam-na no final da vida de Jesus, quando Ele, depois de percorrer toda a Galileia, chega a Jerusalém e aí passa os últimos dias da sua vida; João põe-na no princípio, como frontal de toda a actividade de Jesus e sinal da sua missão. Ele é o vinho novo que substitui a água da purificação e o novo Templo que substitui aquele construído de pedra, mesmo que seja de pedras preciosas. Dali em diante, o lugar de encontro do homem com Deus já não é no Templo (casa, ritual ou sacrifício) mas na própria pessoa de Jesus, o novo Templo.
Precisamos, hoje, de um novo chicote que derrube, também, as nossas mesas de negócio com Deus, disperse tantas das nossas tradições sem sentido e nos faça entrar, purificados, no Templo Novo que é Ele.
Manuel J. Rocha
