O Culto de S. Gonçalinho

Conferência proferida pelo pároco da Vera Cruz nas jornadas sobre S. Gonçalinho, no dia 25 de Novembro

Ao iniciar este pequeno apontamento sobre ao culto prestado a S. Gonçalinho, não posso deixar de recordar as primeiras impressões que tal festa me deixou, há seis anos, e primeiro ano da minha estadia nesta paróquia, que o Correio do Vouga da altura publicou. “Nunca tinha ido à festa de S. Gonçalinho e fiquei abismado, não só como homem, como cristão, mas também como padre. Como simples observador da comunidade fiquei espantado, perplexo, como é possível este santo reunir tanta gente de todas as condições sociais, credos e idades, que se empolgou na festa, vivendo e partilhando alegrias, atirando e apanhando cavacas, enchendo a Igreja nos mais variados actos de culto, montando guarda de honra ao santo ao longo de todo o dia e de todos os dias em que decorre a festa!

É um caso impar na nossa cidade! Passaram seis anos… e agora? O que é celebrar uma festa religiosa?

1. Celebrar a festa

A festa é uma dimensão natural da vida. Comungando com o tempo a mesma sina, também os homens passam da morte de um Inverno à vida nova da Primavera, cimentada pela luz de um Verão que, passo a passo, vai definhando num Outono cinzento, até ao frio de um novo Inverno… É este ciclo da natureza, que contrasta a luz com as trevas e a alegria com a tristeza, que dá sentido a esta dimensão humana e o faz comungar do espaço e do tempo onde se encontra. A festa é, pois, uma dimensão natural da pessoa humana e uma forma de viver em sociedade, ultrapassando as dificuldades, vencendo as tristezas, parando e descansando no tempo e celebrando a alegria. Aqui se junta o mágico e o simbólico, o imaginário e o místico, o religioso, o teatral e até o político. Cada um trazendo a quota parte e respondendo aos anseios de cada um, na festa que é de todos.

2. A festa como dimensão religiosa

Para quem tem fé, a festa, além de nos fazer comungar com a natureza, põe-nos em relação com o Autor da própria natureza e transporta-nos àquele lugar incerto, mas que mora no coração de cada um, chamado paraíso, quando Deus, depois de ter criado toda a criação, achou que tudo era muito bom e, como Pai e exemplo para os criados, descansou ao sétimo dia.

Se a festa era uma forma de comungar com o tempo, ou descansar das agruras da vida, estava encontrado o dia para a sua realização: o sétimo dia que para os judeus era o sábado, para os muçulmanos a sexta-feira e, com Jesus Cristo, para os cristãos, passou a ser o domingo.

Por isso, fazer festa para um cristão leva-nos sempre ao domingo (o dies Domini), o dia do Senhor, o dia de Páscoa, que não é outra coisa que o dia da Vida Nova, e, por isso, o dia da alegria. “Eis o dia que fez o Senhor, nele exultemos e nos alegre-mos. Aleluia!,” cantam os cristãos no domingo de Páscoa.

Em cada domingo, os cristãos celebram este dia de Páscoa, a Páscoa semanal, que tem o seu centro na Eucaristia. Esta é o centro e o cume de toda a actividade da Igreja, ou seja, de cada comunidade cristã e de cada cristão.

Fazer festa para um cristão é sempre celebrar a Páscoa de Jesus, conhecida como a festa das festas, porque é nela que se funda a verdadeira alegria que ultrapassa as barreiras deste mundo e até a própria morte e nos lança na vida verdadeira: a vida eterna. Os santos, aqueles que são julgados dignos de estar no céu, não são outra coisa que testemunhas da Ressurreição, e hoje, são exemplo e incentivo ao caminhar dos homens.

Daqui que o centro de qualquer festa dita religiosa seja a Eucaristia e tudo o mais lhe deva estar submetido. Assim o exige o próprio santo que se invoca e a coerência daqueles que assumem o compromisso de celebrar a festa em sua honra.

3. A festa em honra de S. Gonçalinho

Partindo destas premissas, que são comuns a todas as festas ditas religiosas, importa olharmos para os santos/as que são objecto da nossa devoção e tirarmos das suas vidas ensinamentos que nos levem a conhecer Jesus Cristo, para melhor celebrarmos a alegria, a conhecer a vida do santo, para nos deixarmos entusiasmar pelo seu exemplo e comprometermo-nos na vida com a sua protecção, além do agradecimento por todas as benesses ou graças que nos vai concedendo. E assim, no culto aos santos ou santas, vemos os mais variados costumes ou tradições, hábitos ou orações. Alguns vão caindo com o tempo; outros mantêm-se e prolongam-se através de gerações. Alguns comungam do espírito da festa enquanto celebração da fé; outros levam-nos para outros mundos que, de fé, pouco ou nada têm. O segredo está pois em saber resistir ao tempo naquilo que é de resistir – chama-se a isso tradição, quer dizer, guardar e transmitir aquilo que tem sentido e que vale a pena ser guardado, e deixar cair na arca do tempo aquilo que se tornou obsoleto, às vezes sem sentido e mesmo ofensivo para os tempos que correm.

Compete ao Bispo da diocese, ao Pároco com o seu Conselho Pastoral e às Comissões de festas velar para que a festa se desenrole num clima de alegria saudável, onde a fé se expresse de forma condigna, o povo se alegre com a família reunida e o santo tenha lugar e não se sinta envergonhado com tudo aquilo que, porventura, possa ver ou sentir.

S. Gonçalinho…

É verdade que da vida de S. Gonçalinho ou S. Gonçalo, mais propriamente, não se conhece muito, além do nascimento no século XIII ali perto de Guimarães, a sua ordenação sacerdotal, o seu recolhimento a uma gruta, onde hoje se situa Amarante, a sua oração intensa e a sua dedicação aos mais pobres, que a ele acorrem encomendando os gados e as sementeiras.

Celebrar a sua festa é, pois, recordar a sua memória e tirar dela aquilo que, hoje, nos pode ajudar a vivermos melhor a nossa fé e testemunharmos a nossa alegria e solidariedade, movidos pelo seu exemplo e confiados na sua intercessão: esse será o culto de acção de graças a Deus e alegria, porque nos deu este santo, de revigoramento da nossa fé à semelhança da sua vida e de compromisso na senda do seu exemplo.

O que é que nos pode dizer, hoje, S. Gonçalinho?

1. Ainda jovem, descobriu a sua vocação: o que é que Deus quer de mim? E foi ordenado sacerdote em Braga.

Hoje, que vivemos um tempo de crise de vocações, em que se pretende que as crianças da beira-mar conheçam mais S.Gonçalinho, o santo que lhes apresentamos e a festa que lhe fazemos entusiasma algum adolescente a ser melhor cristão, mais comprometido com a sua vida e com a dos outros, a interrogar-se sobre a sua vocação? Por ali passam tantos jovens de dia e sobretudo de noite; que imagem levam deste santo?

Ao longo de todo este tempo, ajudámos algum a decidir-se pelo sacerdócio ou pela consagração da sua vida ao Senhor?

Ajudámos alguém a ser melhor pai ou melhor mãe ou melhor filho? Ou basta-nos dizer que é um santo casamenteiro, com todo o ar brejeiro que isso traz, e acrescentarmos que também é vingativo?

2. É conhecida da vida de S. Gonçalinho a vontade que sempre teve de conhecer mais e melhor Jesus Cristo. Segundo a tradição, terá visitado Roma e os lugares santos, como prova de formação e penitência. Há tantos anos que fazemos a festa! O seu exemplo tem despertado em nós essa vontade — mordomos, zeladoras e demais devotos — de sabermos mais para melhor darmos razões da nossa fé de cristãos num mundo que tanto necessita delas? Mais concretamente, as nossa Comissões de festas que são feitas de homens bons e devotos do santo têm essa preocupação pela formação, pelo testemunho de vida e, sobretudo, pela celebração e vivência da sua fé?

3. A sua caridade para com os mais pobres foi uma constante da sua vida. Aliás, a lenda das cavacas pode ter aqui uma das explicações, que não a única. Imaginamos, pois, as dificuldades porque teve de passar na sua ermida, para que houvesse sempre algo que partilhar com os outros. Temos gente solitária, doentes sós, pobres a dormir por aí, gente que, diariamente, por esta ou aquela razão, estende a mão à caridade. Todos eles são um apelo e um exame de consciência, às vezes crítico, à forma como organizamos as festas com o nome dos santos, mas, seguramente, sem a sua presença.

E nós que temos, hoje, para oferecer a quem vem celebrar o santo? Novamente cavacas e danças de mancos?

Disse em 2002. “Ninguém pode estar contra a distribuição de cavacas, mas é preciso que, tal como nos tempos antigos, elas signifiquem mais partilha de uns para com os outros, mais justiça social, mais igualdade entre todos, menos foguetes e mais fogo no coração de cada um.

Quem pode estar contra a dança dos mancos, quando ela significar a dança de todos aqueles que mancam na vida pela fome, pela solidão, pela doença, pela ignorância, pela exploração injusta e, com um gesto, uma palavra, uma visita, eles dançarem a alegria de uma vida que volta a sorrir? Penso que até o santo se associará a esta dança.”

Conclusão

Para concluir respondamos à pergunta inicial: qual o culto que, hoje, será agradável ao Santo?

Importa aprender dele: a conhecer melhor Jesus Cristo, mesmo que isso nos custe; a servirmos a Igreja, particularmente na pessoa dos mais pobres, como ele fez e deu o exemplo; a encetarmos o caminho da nossa vida na procura de um tesouro que Deus guardou para todos e cada um e que mora no coração de cada homem. “Este é o culto que me agrada: visitar os órfãos e as viúvas e conservar o coração limpo de toda a mancha.”

Não tenhamos medo de avançar na fidelidade à Igreja e ao santo, porque ele, se por acaso fosse vingativo, já teria deixado marcas em muitos de nós, por aquilo que a sua posição altaneira lhe permite observar do seu altar. Sabemos que nutre pelas gentes da Beira-Mar uma simpatia especial; confiemos, pois, na sua protecção e saboreemos a alegria da festa.