“O desafio de ir por mais tempo surgiu e a vontade foi crescendo”

Ana Laura Guedes, 56 anos, professora reformada, esteve pela primeira vez em Angola no ano 2000, ainda no tempo da guerra. Depois de várias experiências relativamente curtas, dispõe de um ano lectivo (que em Angola começa em Fevereiro) para se dedicar à Educação, algo muito mais importante para o futuro de Angola do que o petróleo.

O que vai fazer em concreto?

Como sempre estive ligada à Educação, é nesta área que vou dar a minha colaboração. Foi como professora e com professores que trabalhei desde a minha primeira experiência; e, como é natural, um mês não dá para se fazer muito. Agora, com mais tempo, vou poder estar com os professores, dar-lhes alguma formação, refazer alguns programas de cursos e também dar alguma atenção ao ensino rural, dando formação e fornecendo material a um grupo de professores que estão espalhados pelos milhares de km2 do mato, em pequenas escolas de várias comunidades. É muito importante este trabalho. Além da ajuda pelo ensino, vale a minha presença, o estar e termos a mesma língua.

Como surgiu a possibilidade desse trabalho? Já conhecia os responsáveis com quem vai trabalhar?

Logo no primeiro ano, porque tanto havia para se fazer, o “desafio” de ir por mais tempo surgiu e a vontade de poder ir foi crescendo. Já conheço os responsáveis com quem vou trabalhar: Pe. Martin Lasarte, Director da Escola Dom Bosco e pároco da paróquia de S.Pedro e S.Paulo, em Lwena. Aliás, já passou por Aveiro e esteve um serão no CUFC, com quem quis e pode aparecer para o ouvir.

Que dificuldades espera encontrar? Quais as expectativas?

As dificuldades que espero encontrar não sei; sei que as facilidades não são as de cá. Há necessidade de se ser criativo, pois há falta de materiais didácticos e às vezes até de livros. Isto no que diz respeito ao trabalho em si, porque, no dia-a-dia, a vida vai ser diferente, claro!

As expectativas são muitas, assim como os receios; mas naturais, suponho! Desta vez, não vou por um mês ou dois; logo aqui há diferença. Depois, também é a época de mais calor, o que é uma novidade para mim. Mas, ao mesmo tempo, o simples facto de pensar nesta oportunidade que tenho, dá-me uma vontade enorme de aceitar o “desafio” que me foi feito. Espero poder ser capaz de me adaptar a todas as novas situações e estar sempre de “coração bem disposto”, como primeiro requisito do Pe. Martin.

Por onde já passou como voluntária?

Comecei em 2000, tempo de guerra ainda, em Luanda. Voltei em 2001 para as mesmas escolas. Em 2002, estive em Lwena, na altura do regresso de milhares de refugiados dos países vizinhos. Havia muita fome, muitas famílias desalojadas, mas uma grande vontade de começar do nada; muita coragem e esperança! Voltei em 2003. Alguns dos refugiados já tinham regressado às suas terras de origem. Em 2005 fui ao Brasil (Belém do Pará). Estive com os Sem Terra. Em 2006, regressei a Angola (Luanda) e trabalhei com meninos de rua. Foram sempre experiências diferentes, mas todas apaixonantes, mesmo quando os locais e o tipo de trabalho eram parecidos.