Dez Palavras-chave sobre a “Caritas in Veritate” Bento XVI dedica onze números da “Caritas in veritate” (CV), do 10 ao 20, à “Populorum progressio” (PP), encíclica de Paulo VI sobre o desenvolvimento dos povos, publicada em 1967. Porém, como é sabido, toda a CV remete com frequência para o documento paulino.
A PP surgiu sob o signo do optimismo. O Concílio II do Vaticano tinha acabado há pouco (1965) e o documento pretendia continuar a ideia de diálogo com o mundo que enforma toda a constituição pastoral “Gaudium et spes”. Por outro lado, apesar da Guerra Fria, o mundo respirava confiança no futuro devido às altas taxas de crescimento económico na Europa e na América do Norte, no pós-guerra, e à independência das nações africanas (o império colonial português é o único que sobrevive à década de 1960).
Pensava-se então que o desenvolvimento seria uma questão de aplicar as receitas adequadas, mas Paulo VI alerta contra essa “ideologia tecnocrática”.
Se o futuro viria a dar razão a Paulo VI, com o fracasso das receitas que de fora tentam desenvolver um determinado país, levou, no extremo, a uma ideologia antidesenvolvimento (que radica também no esboroamento da verdade) repudiada pelo Papa Bento: “A ideia de um mundo sem desenvolvimento exprime falta de confiança no ser humano e em Deus. (…) É um grave erro desprezar as capacidades humanas de controlar os extravios do desenvolvimento ou mesmo ignorar que o ser humano está constitutivamente inclinado para «ser mais»”. A este “inclinado para «ser mais»” chama-se “vocação”, pelo que, se Paulo VI afirma que “nos desígnios de Deus, cada homem é chamado a desenvolver-se, porque toda a vida é vocação” (PP 15), o Papa actual acrescenta: “Dizer que o desenvolvimento é vocação equivale a reconhecer, por um lado, que o mesmo nasce de um apelo transcendente e, por outro, que é incapaz por si mesmo de atribuir-se o próprio significado último. (…) Não há verdadeiro humanismo senão aberto ao Absoluto”. Nesta linha de pensamento, Bento XVI deixa uma afirmação que se tornou nas mais citadas desta encíclica: “A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos. A razão, por si só, é capaz de ver a igualdade entre os seres humanos e estabelecer uma convivência cívica entre eles, mas não consegue fundar a fraternidade. Esta tem origem numa vocação transcendente de Deus Pai, que nos amou primeiro, ensinando-nos por meio do Filho o que é a caridade fraterna” (CV 19). O desenvolvimento humano precisa da razão e da vocação, da ciência e da fé.
J.P.F.
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