A polémica está instalada. O problema merece profunda e conscienciosa discussão: trata-se da procriação medicamente assistida. As implicações sociais, as questões éticas… terão de ser traves mestras do debate. As razões da polémica, todavia, desvirtuam o essencial da reflexão.
É que, antes de colocar o mais fundamental dos direitos fundamentais da pessoa humana como pano de fundo de todo o problema – o direito à vida – tudo se diz e se propõe ignorando isso mesmo. Como tratar os embriões excedentários, sim ou não à fecundação heteróloga, concessão ou não às candidatas a mães solteiras, “modelação” do embrião ao gosto dos “progenitores”…
Tudo aponta para uma manipulação completa: a vida torna-se um “produto” disponível, que cada um “compra” a seu gosto, segundo o modelo que lhe interesse. Sem falar nos “excedentes”, que não têm forma de serem respeitados, os “sobreviventes” hão-de vir a sentir-se muito mal, quando descobrirem que são um produto completamente dependente dos gostos ou fantasias dos “progenitores”.
E se, porventura, vierem a ter dificuldades no sucesso da vida?… E se, vítimas das pressões sociais, não vierem a corresponder aos sonhos dos seus progenitores?… E se, por argúcia e engenho da ciência, vierem a constatar que as escolhas não foram rigorosas e agora lhe sofrem as consequências?… E se?… E se?… E se?…
“As ameaças contra a vida não diminuíram. Ao contrário, assumem dimensões enormes. Não se trata apenas de ameaças vindas do exterior, de forças da natureza ou de «Cains» que assassinam «Abeis»; não, trata-se de ameaças programadas de maneira científica e sistemática” (João Paulo II – 14-08-93).
E se o Santo Padre se referia directamente à cultura da contracepção, da esterilização, do aborto e da própria eutanásia, bem poderia referir-se a estas novas formas de «selecção de raça», de «instinto de pose e disponibilidade da vida» à lista e a gosto. “Civilizadas” formas espartanas de se afirmar o homem o senhor da vida, em vez de a acolher gratamente como um precioso dom!
Mesmo que considerem as nossas posições incondicionalmente a favor da vida como inimigas da liberdade e do progresso, não podemos deixar de ser verdadeiros cruzados desta causa. Sabemos que, algumas vezes, as circunstâncias dramáticas de sofrimento, de solidão, de carências económicas ou outras, de depressão e de angústia face ao futuro, atenuam a responsabilidade de quem entra pelos caminhos de “manipulação da vida”. Mas não podemos alhear-nos da atmosfera que nos envolve – e essa é que reclama o nosso combate: o clima cultural, social e político, que qualifica estas posições de legítimas expressões da liberdade individual… E a liberdade e dignidade dos que ainda não sabem defender-se e reclamar?…
