O Espírito sopra onde quer

À Luz da Palavra – XXVI Domingo do Tempo Comum – Ano B A Palavra situa-nos numa realidade profundamente divina e cristã, mas muito difícil de aceitar por parte de muitos católicos, a saber, que o Espírito de Deus, a exemplo do vento, sopra onde quer e como quer, e não sabemos de onde vem nem para onde vai (cf. Jo 3). Isto é, o Espírito Santo pode exercer a sua maravilhosa acção em qualquer homem ou mulher, seja qual for a sua condição social e religiosa e onde quer que se encontre.

Na primeira leitura, Moisés critica Josué, seu ajudante, porque este manifesta ciúmes pelo facto dos homens escolhidos por Moisés terem começado a profetizar pela acção do Espírito. Acrescenta: “Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor infundisse o seu Espírito sobre eles!” Moisés declara-se abertamente contra todo o espírito de inveja e partidarismo, pois todo o povo é animado pelo Espírito, que assiste cada um em ordem à função que recebeu para o serviço do mesmo povo.

No evangelho, Marcos apresenta-nos Jesus a repreender os discípulos por terem impedido um homem de expulsar os demónios, porque não andava com o Mestre. Jesus esclarece que todo aquele que pratica uma boa obra o faz pela acção do Espírito e, por esse facto, está em ligação com Ele e com a comunidade, embora possa não ser reconhecido como tal. O texto fala-nos, ainda, da necessidade que temos de nos colocar sob a luz do Espírito Santo, para discernirmos o que é ou não fruto desse mesmo Espírito. “Cortar” a mão ou o pé e “arrancar” o olho significa examinarmo-nos a nós mesmos, com frequência, a fim de irmos abandonando as obras que constituem obstáculo à edificação do Reino de Deus

Na segunda leitura, Tiago, com a sua linguagem violenta, critica aqueles que vivem, em primeiro lugar, para amontoar bens materiais e que descuram os verdadeiros valores, frutos do Espírito. Critica, também, os ricos, que acumulam bens à custa de injustiças. Não é cristão nem cristã quem não paga o salário justo aos seus empregados, mesmo que ofereça somas avultadas à Igreja, que frequente os sacramentos e pertença a grupos de pastoral. Não o é tão pouco quem usa de subterfúgios para se esquivar aos impostos, apesar de repartir com os pobres os bens acumulados pela fraude.

Actualizando estes textos, podemos afirmar que o Espírito não é apenas privilégio de alguns, mas é dado a toda a comunidade do Povo de Deus e está vivo em todos os homens e mulheres que abrem o seu coração ao dom de Deus e aderem ao projecto de Jesus Cristo. Nesta perspectiva, os líderes das comunidades, a exemplo de Moisés e de Jesus, só poderão desempenhar com eficácia a obra de Deus, que lhes é confiada, na medida em que repartirem tarefas e responsabilidades e ouvirem os pareceres dos membros das suas comunidades. Estou consciente de que cada homem ou mulher de boa vontade está possuído pelo Espírito que o habilita para colaborar na construção da Igreja? Que tipo de cristão e cristã sou eu? Estou aberto à erupção do Espírito, onde quer que Ele se manifeste, ou fecho-me, de forma arrogante e fanática, nos privilégios que penso já ter adquirido?

Leituras do XXVI Domingo Comum – Ano B: Nm 11,25-29; Sl 19 (18); Tg 5,1-6; Mc 9,38-43.45.47-48

Deolinda Serralheiro