O espírito vivifica

“A letra mata; o Espírito dá vida”. Todos entendemos que a estrutura, quando se apresenta em função de si mesma, em vez de serviço despretensioso à vida, torna-se impedimento da mesma vida. Essa é a tensão permanente, que se vive na Igreja, como em qualquer instituição.

Só que há uma diferença: as instituições humanas, reguladas por leis humanas, estão sujeitas ao sopro “vivificador” da mesma origem humana; a instituição eclesial está submetida ao Espírito Santo, que sopra onde quer, como quer e quando quer. Como o sol, dando luz a todos, sem se esgotar na iluminação de cada um. Dando capacidades e dons na medida da receptividade de cada um, sem perder o vigor de a todos obviar…

A Igreja já atravessou muitas invernias. Há sempre a possibilidade de querermos enclausurar na estreiteza das nossas limitações humanas esta Fonte perene de criatividade, esperança, alegria, tentando erguer diques e muralhas que aprisionem Aquele que não cabe no Universo. Mas, porque Ele está para além de todas as programações e cálculos, de todas as organizações e métodos, surgem – as mais das vezes por meia dúzia de loucos do Evangelho! – primaveras imparáveis, que permitem o regresso à frescura original, acrescida do fogo que a vivência de cada tempo vai proporcionando.

Mesmo que, em circunstâncias precisas, nos falte o encanto do primeiro Amor, esmoreça no nosso rosto a Alegria originária, o Fogo, a Luz, o Sopro de Deus não dorme! E, pelas mais diversas formas, dentro da instituição e por mediação de factores externos, a aurora de um novo dia há-de surgir, a iluminar os rostos dos entristecidos, a aquecer os corações dos desanimados, a sacudir a inércia dos cansados, a suscitar as formas novas de vida aptas a cada tempo e a cada lugar, a cada povo e a cada cultura.

“Ele vos recordará quanto vos ensinei e vos guiará para toda a Verdade” – diz o Senhor Jesus. Ouvidos e olhos atentos à Sua presença e aos Seus estímulos são a garantia de que não abortará a missão de recriar o Mundo e a Pessoa humana, de que a Sociedade poderá percorrer o projecto de Deus, de que a Igreja cumprirá o seu serviço.

A certeza desta presença fecundante dará ânimo para procurar manter e reforçar o que é permanente, serenidade para deixar cair o que é o pó da história, entusiasmo para acolher o que é a novidade necessária. O princípio do Espírito é a diversidade na unidade; não a univocidade na confusão!