A memória é raiz necessária à sobrevivência da identidade, seja pessoal seja comunitária. E vivemos um tempo em que, legitimamente voltados para o futuro, na pressa de o conquistar, perdemos facilmente a consciência de onde vimos, da história que nos construiu.
Isto também é verdade no sistema educativo. Na corrida pelo choque tecnológico, um dos instrumentos para vencer o futuro, esquecemos com facilidade uma longa história de analfabetismo e um ainda curto esforço de generalização do ensino.
Um e outro destes elementos históricos condicionam gravemente a construção sólida duma educação de base, duma qualificação profissional consistente, de uma ciência de excelência e englobante. É que o primeiro factor reclama uma persistente e exigente iniciação à instrução e à cultura; o segundo, uma vasta e qualificada formação inicial dos formadores.
Ou seja: nós tivemos gerações e gerações entregues a si próprias no esforço de transformar as intuições em informações, em ciência, em sabedoria. Só algumas e raras elites tinham o privilégio de sistematizar a observação da vida, do mundo…
Por outro lado, “Para ensinar, há uma formalidade a cumprir – saber” – como dizia Eça de Queirós. E, quando da explosão da escolaridade obrigatória, a preparação dos docentes foi tudo menos uma formação programada, consistente, avaliada.
Os efeitos por aí andam agora: escolarizados “analfabetos”, professores “aprendizes”, programas “experimentais”, desenhos curriculares ao sabor dos tempos… E avaliação é um “espírito mau”, que é necessário esconjurar para bem longe. Assim: exames, avaliação de docentes e escolas, estatuto dos alunos, deveres dos pais, são temas incómodos, controversos e perversos.
A questão fundamental será esta: lúdico e lazer não coincidem. Poderá haver processos pedagógicos mais ou menos lúdicos. O que eles nunca poderão é induzir docentes, pais e alunos no erro crasso de pensarem que os tempos de trabalho, mesmo com essa didáctica, são tempos de lazer.
Compreensão não é falta de exigência: é verdadeira atitude educativa, de quem reconhece os alunos onde estão, mas sem deixar que fiquem no mesmo patamar. As competências terão de ser ajustadas às possibilidades reais do educando; mas nunca submissas às suas disposições de trabalho. Esse é sempre o único caminho para alcançar sucesso. Com ritmos diversificados, porventura; mas sempre com horizontes possíveis de alcançar.
Quem assim pensa e actua não esquece o passado, observa com realismo o presente, traça caminhos de futuro com optimismo mas exigência, persiste em alcançar a linha da frente, não teme as avaliações e críticas.
