Devo começar por dizer que gosto muito de futebol. Por futebol, entenda-se o jogo, os golos, as vitórias, as emoções. Lá dentro, nas quatro linhas. Com cor, movimento, alegria, tristeza, ansiedade.
Mas gosto cada vez menos do (e não de) futebol, naquilo que ele tem de tudo menos de jogo, de golos, de vitórias, de emoções.
Confesso que já não tenho paciência para o circo mediático à volta do futebol. Entrevistas de lugares-comuns até à náusea, reportagens sobre treinos cujo desinteresse é por demais evidente, análises ante e pós jogos insuportavelmente pseudo-científicas, aproveitamentos social, profissional, político nem sempre adequados desta actividade, começam a ser intragáveis.
De quatro em quatro anos, aí temos o ritual do Campeonato do Mundo. Entretanto, temos que aturar as doses maciças de reportagens, entrevistas, retrospectivas, prognósticos, verves de analistas e comentadores que quase me tiram a vontade de acompanhar a única coisa que vale a pena ver: os jogos…
Até lá já sei que tenho de aprofundar o meu já compulsivo “zapping” televisivo. Porque, francamente, o que é que interessam o pequeno-almoço dos jogadores, o passeio pelas imediações do hotel, as habituais zangas do seleccionador, o filme levado para o estágio ou a que horas se deitam os craques?
Os artistas são transformados em ídolos inacessíveis ou em heróis a imitar e quase endeusados, só porque dão uns bons chutos na bola? A histeria é levada ao impensável através das televisões. O sentido patriótico mede-se pela sujidade e mau trato das bandeiras abandonadas depois dos campeonatos?…
Vemo-nos confrontados, até à exaustão e por todo o lado, com o primado da adjectivação prolixa, que se espalhou virulentamente no futebol. Numa bolsa de valores, os ditos adjectivos estariam pela rua da amargura, tal o dislate da oferta. Talentoso, genial, mágico, estonteante, fabuloso, fenomenal e tantos outros, por tão usados e transaccionados, já não teriam sequer uma mínima oferta pública de aquisição, uma OPA que os reconduzisse ao seu verdadeiro capital semântico.
Esta praça dos exageros, este mercado altamente volátil da sôfrega opinião, mais não é do que a exteriorização sobre a relva do que já é regra sociológica na sociedade: a facilidade, o repentismo, a vulgaridade com que uns ajuízam sobre outros, num turbilhão desgovernado de leviandade, despeito, mediocridade. Vivemos uma época onde a etiquetagem das pessoas parece ser implacavelmente ligeira e volúvel.
Com o Campeonato do Mundo vem também ao de cima, o verdadeiro mundo do futebol planetário. De um ponto de vista social lato senso, poderíamos dividi-lo em quatro grupos: rico, remediado, pobre e abaixo do RMG. E dentro do rico, como que espelhando a distribuição de riqueza no mundo, uma minoria muito minoritária rica, uma maioria muito maioritária pobre e uma “classe média” quase insignificante…
Ah! Já me esquecia de dizer algo sobre o verdadeiro Campeonato na Alemanha. Que posso dizer? Quanto aos nossos jogadores, que joguem e ganhem. Que acabem com entrevis-tas ocas e joguem futebol recheado. Que “comam a relva” e prestigiem o país. Que corram e não se queixem dos “magros” proventos. É isto que eu quero. O resto dispenso.
Que, não sendo nós a ganhá-lo (o nosso problema nunca são as equipas mais poderosas, mas Marrocos, Estados Unidos, Coreia, Grécia e, por isso, cuidado com o Irão, o México e Angola…), que ganhe o Brasil. Se não for o Brasil, que seja então a pátria do futebol-espectáculo e do “fair play” que é a Inglaterra. Não estando Portugal e o Brasil, torço sempre pela Inglaterra. Seja a selecção, sejam clubes!
No fim, ficará o campeão para ser lembrado e o resto para se esquecer na voragem do tempo que não espera. É que, enquanto o sucesso é um assunto público, o fracasso é um funeral privado.
O futebol já não é um desporto. É um negócio, uma feira de vaidades e de mentiras, um analgésico servido de modo totalizante nas televisões! Recordo-me do modo como se criticava um dos chamados “F” (futebol) do Estado Novo. Agora esse “F” foi alcandorado a desígnio nacional, tudo preenche e tudo condiciona. Mudam os tempos, reforçam-se os “futebóis”…
