Direitos Humanos Partilho convosco, desta vez, um exercício de inculturação.
Primeiramente, aqui me confesso português, criado numa pequena cidade do interior, acostumado a dizer que “o dia está bom” quando lá fora o sol brilha, a temperatura é amena e o céu azul nos faz manter o rosto alegre. Na verdade, até há pouco tempo, nunca me imaginaria a dizer que “o dia está bonito”, quando lá fora a chuva cai a cântaros, os dias são cinzentos e uma pessoa acaba por não sair muito de casa, mercê das “bátegas de água” que caem quando menos esperamos.
Há dias, participando de um encontro sobre Direitos Humanos, onde estavam vários camponeses, moradores em assentamentos rurais de Reforma Agrária, perguntei como estava a vida lá pela área, onde eu próprio já tinha estado uns meses antes. “Oh, Jorge, ‘ta bom demais! Este ano o Inverno está muito bonito, graças Deus”. Essa foi a resposta, tão simples, quanto interpelante.
Este ano chove, extraordinariamente bem, nesta região do Nordeste Brasileiro.
Sempre tive consciência da necessidade de chuva, que o povo, principalmente o nordestino, sente aqui no Brasil.
Os dados são claros. A intensidade, principalmente a regularidade, das chuvas no Nordeste Brasileiro vem diminuindo. Consequentemente, a área com tendência à desertificação vem aumentando. Tudo isto aliado ao desrespeito que os novos “fazendeiros” do agronegócio da soja têm para com a natureza, destruindo a vegetação nativa e tornando o solo cada vez mais infértil. A tal ponto a situação é crítica que os cursos de água na Região, mesmo até no Estado do Maranhão – tido como o estado menos árido do Nordeste – estão começando a secar.
Tomemos como exemplo um estudo da ONG internacional World Vision. Segundo ela, até aos anos 50, a percentagem de vazão das fontes no Nordeste não era maior do que 0,2% ao ano. Essa taxa de redução subiu para 3% até 1970 e, nos últimos 35 anos, tem aumentado até aos 6% ao ano!
Trata-se de uma situação catastrófica, que faz com que o ritmo de desertificação já ascenda a 3% ao ano. Numa região brasileira onde quase 60% de toda a sua área está em processo de desertificação ou susceptível à desertificação!
Quando cheguei pela primeira vez ao Maranhão, disseram-me que as estações do ano, por aqui, se resumiam a duas: a estação das chuvas (1º semestre do ano) e a estação seca (2º semestre). Ao constatar, na prática, ao longo dos anos, que a época húmida afinal começava em Fevereiro e que no mês de Maio as chuvas já eram muito esparsas, percebi claramente que algo estava errado.
Há muitos anos que os Invernos tinham “deixado de ser bonitos”.
Volto ao meu exercício de inculturação, para relatar uma mudança pessoal de postura. Estes quase 12 anos de contacto com a realidade nordestina fizeram-me inverter a minha percepção do “bom tempo” e do “mau tempo”.
Na alegria daquele “o Inverno está muito bonito, graças Deus!” percebi que, na verdade, os dias felizes são aqueles em que o céu faz chover e, com essa chuva, toda a natureza exulta, renasce e se revigora. Mais uma vez aprendi com a ajuda do povo.
Recusar-me-ei, de agora em diante, a fechar o semblante quando as nuvens ameaçarem chover. Perante o clamor do povo do sertão, nada mais posso fazer do que alegrar-me com a chuva, pedir ao Pai para que mais meses possam propiciar a bem-aventurada “água do céu” e tornar ainda mais determinada a nossa luta, de modo a que a integridade da Criação seja preservada e sejam perpetuados os sorrisos de todos quantos dela dependemos.
