O ministério petrino na comunhão da fé

Revisitando o Vaticano II A homilia de Sua Santidade Bento XVI, ao tomar posse na sua Cátedra de Roma, é uma peça de reflexão teológica sobre as relações entre Magistério e Teologia e vida da Igreja. Ficam alguns parágrafos, com a recomendação da sua leitura total.

“O Bispo de Roma senta-se sobre a sua Cátedra para dar testemunho de Cristo. Assim, a Cátedra é o símbolo da potestas docendi, aquele poder de ensinamento que é parte essencial do mandato de ligar e desligar conferido pelo Senhor a Pedro e, depois dele, aos Doze. Na Igreja, a Sagrada Escritura, cuja compreensão cresce sob a inspiração do Espírito Santo, e o ministério da interpretação autêntica, conferido aos apóstolos, pertencem uma ao outro de modo indissolúvel. Onde a Sagrada Escritura é separada da voz vivente da Igreja, torna-se presa das disputas dos peritos. Certamente, tudo o que eles têm para nos dizer é importante e precioso; o trabalho dos peritos serve-nos de notável ajuda para poder compreender o processo vivo pelo qual cresceu a Escritura e compreender assim a sua riqueza histórica. Mas a ciência sozinha não pode fornecer-nos uma interpretação definitiva e vinculante; não está em grau de nos dar, na interpretação, aquela certeza com que possamos viver e pela qual possamos também morrer. (…)

Este poder de ensinar assusta muitos homens dentro e fora da Igreja. Pergunta se ele não ameaça a liberdade de consciência, se não é uma presunção contraposta à liberdade de pensamento. Não é assim. O poder conferido por Cristo a Pedro e aos seus sucessores é, em sentido absoluto, um mandato para servir. O poder de ensinar, na Igreja, comporta um empenho no serviço da obediência à fé. O papa não é um soberano absoluto, cujo pensar e querer são leis. Pelo contrário: o ministério do Papa é garantia de obediência a Cristo e à Sua Palavra. Ele não deve proclamar as suas próprias ideias, mas vincular constantemente ele próprio e a Igreja à obediência à Palavra de Deus, face a todas as tentativas de adaptação e diluição, como face a todo o oportunismo. (…) O Papa é consciente de, nas suas grandes decisões, estar ligado à grande comunidade de fé de todos os tempos, às interpretações vinculantes crescidas ao longo do caminho peregrinante da Igreja. Assim, o seu poder não está acima, mas ao serviço da Palavra de Deus; e incumbe-lhe a responsabilidade de fazer com que esta Palavra continue a permanecer presente na sua grandeza e a ressoar na sua pureza, bem como de garantir que não seja feita em pedaços pelas contínuas alterações das modas”.

Querubim Silva