“Quando a minha firma está em dificuldades vale-me o salário da minha esposa, que é funcionária pública e por enquanto recebe certinho. Os meus funcionários, esses são sempre os primeiros a receber, até porque não sei se algum deles é casado com uma trabalhadora que traga sempre o salário para casa”.
Não foi esta a realidade que a Comissão Justiça e Paz encontrou em Valongo do Vouga, na sessão da noite de 29 de Abril. Ao reflectir sobre o “Trabalho digno, justo e reconhecido”, descobriu algumas vivências pouco dignas, onde os Direitos Humanos não entram e os valores cristãos são ignorados por patrões que até frequentam a igreja.
Foram muitas as situações relatadas de insegurança e de atropelos nos direitos.
* O medo de perder o emprego paira no ar (com tanta empresa a encerrar); assim, o patrão impõe horas extraordinárias, fecham-se os portões, e os trabalhadores têm de continuar a laborar. Picam o cartão habitual; e picam um segundo para o registo das horas!
* “Da casa de banho… não vou falar, até porque já lá foi a inspecção, e tomou conta da ocorrência; e voltou e voltou e nada de nada; porque será?”
* A criação do seu próprio emprego tentada por alguns, ficou pelo caminho: a burocracia fala mais alto e a “cunha” também.
Partilhar com esta gente a doutrina social da igreja é uma forma de interpelação profunda, que nos questiona como vivemos hoje os valores cristãos e humanos, tendo como exemplo as palavras dos nossos Bispos na carta pastoral “Responsabilidade Solidária pelo Bem Comum”, que nos diz: “O trabalho é uma vocação inerente ao ser humano, é participação na obra criadora de Deus, é realização da pessoa humana na sua dignidade em solidariedade efectiva com os outros seres humanos. O trabalho é uma dimensão fundamental da existência humana sobre a terra” (nº 17).
O trabalho digno justo e reconhecido visa o primado da pessoa humana. A pessoa humana é o centro de tudo.
O trabalho é um direito e uma necessidade.
“É a chave da questão social”, escreveu João Paulo II na encíclica “Laborem Exercens”. Pelo trabalho, cada Ser torna-se cooperador na obra da criação.
Trabalho digno, justo e reconhecido é aquele que realiza o Homem, tornando-o mais humano e permitindo uma vida digna para si e para a sua família.
A reflexão permitiu analisarmos o significado de cada palavra e a sua grandeza:
Digno; Justo e Reconhecido. Analisámos ainda os números de desempregados de Águeda (1779 – na diocese, a seguir a Aveiro, é o conselho com maior número de desempregados, em números absolutos) e de Valongo do Vouga e chegámos à conclusão da urgente necessidade de crescermos em cidadania activa e de nos organizarmos para criarmos alternativas e sobretudo uma nova consciência de Cristãos empenhados. As pequenas acções têm muito valor, se forem feitas por todos; e transformam-se em grandes.
Graciete Marques, da Comissão Diocesana Justiça e Paz
