O nosso “capitalismo selvagem”?

Questões Sociais Até esta data (4 de Outubro), a grave crise financeira, que já atingiu severamente alguns países europeus, ainda não se fez sentir entre nós com a mesma intensidade. São várias as causas explicativas do fenómeno, e nada nos garante que assim continuemos. No entanto, e sem prejuízo de algumas críticas, justifica-se enaltecer a sábia orientação adoptada em Portugal, há muito, pelas instituições de crédito, pelas entidades reguladoras, pelos governos e pelos trabalhadores destas organizações.

Relativamente à crise que vem assolando os mercados financeiros, parece recomendável não a reduzir a uma questão meramente ideológica. Sem prejuízo desta vertente, relacionada com o chamado «capitalismo selvagem», aconte-ce que estamos perante desafios político-financeiros decorrentes da enorme dificuldade de regulação dos mercados. Tal regulação exige não só vontade e capacidade políticas mas também conhecimentos técnico-científicos bastante complexos.

Feita esta ressalva, importa recordar que a nossa economia vive num processo dialéctico de regulação versus não regulação ou «capitalismo selvagem». Como exemplos do alastramento deste capitalismo, podem referir-se: o peso do mercado negro; o incumprimento da legislação; a especulação financeira injusta; o desprezo político da economia de subsistência, gerando inúmeras situações de desespero e de desvio para a ilegalidade; o abandono de muitas situações de pobreza e exclusão; os benefícios exorbitantes concedidos ao investimento estrangeiro, e daí ao grande capital; a imitação do capitalismo dentro do sector público, traduzida na criação de empresas inúteis e no aumento de desigualdades salariais sem fundamento… As próprias entidades reguladoras também correm o risco de entrar no mesmo jogo, sendo ciosas de seus estatutos e fechando-se numa espécie de redoma para-judicial, à margem da apreciação pública. Acrescente-se, ainda, que também a luta antica-pitalista favorece, grandemente, o «capitalismo selvagem», na medida em que «mete no mesmo saco» a economia regulada e a não regulada; desse modo, abala muito mais a regulada, uma vez que a outra dispõe de recursos superiores, dentro e fora do país, para sobreviver a todo o tipo de contestações.

Apesar de ser extremamente difícil a regulação saudável da economia e das finanças, não se perca de vista que ela é indispensável e se deve basear na procura da harmonia possível entre a esfera financeira, a económica e a social. A regulação financeira deve estar ao serviço da economia; e tanto a economia como as finanças devem estar ao serviço de toda a sociedade, sem exclusões. Para que assim aconteça, torna-se imprescindível o envolvimento dessa mesma sociedade e de cada cidadão, sem alijamento de responsabilidades.