O “Papa explosivo” é também a “pessoas normal” que lidera a Igreja Católica

António Neto Brandão, Eduardo Conde, Manuel Oliveira de Sousa, António Rocha, Carlos Teixeira, Andreia Ramos, Jorge Castro e Francisco Melo
António Neto Brandão, Eduardo Conde, Manuel Oliveira de Sousa, António Rocha, Carlos Teixeira, Andreia Ramos, Jorge Castro e Francisco Melo

 

“Cada vez que Francisco fala, o mundo para”, afirma António Rocha, que promoveu na Barra um colóquio sobre o Papa Francisco.

 

“Temos um Papa explosivo”, “um autêntico vulcão”, “uma figura exemplar que vai ficar na história”. “Ocupará um lugar que só tem equiparação à figura de Nelson Mandela”. Estas frases e expressões não são de um católico devoto. Disse-as António Neto Brandão, primeiro governador civil no pós-25 de Abril, que se qualifica como não crente. “Chego a pensar: «Felizes os que creem». Têm resposta para os problemas e angústias”. Não é o seu caso. Mas anda encantado com o Papa Francisco: “Esperança é o que me surge de imediato. Ele conseguiu restituir a esperança ao povo. O povo olha para o seu Papa como uma força da natureza, capaz de abrir caminhos de futuro. Sedutor, carismático, atrai”.
Estas ideias foram partilhadas num colóquio sobre o Papa Francisco, realizado no salão da paróquia da Barra, na noite de 6 de setembro. Com o antigo governador civil estiveram mais quatro intervenientes: o pastor metodista Eduardo Conde, a animadora juvenil Andreia Ramos, o diretor da Escola Profissional de Aveiro, Jorge Castro, e o padre Francisco Melo. O colóquio foi uma ideia do ilhavense António Rocha, que a título individual pediu a colaboração de Manuel Oliveira de Sousa e da Rádio Terra Nova. A iniciativa foi assumida e organizada pela Comissão Diocesana Justiça e Paz (presidida por Oliveira de Sousa) e pela emissora. O jornalista Carlos Teixeira moderou o colóquio que a Rádio Terra Nova transmitirá hoje (10 de setembro), a partir das 19 horas.
António Rocha, funcionário na Câmara Municipal de Ílhavo, não disfarça o fascínio que sente pelo Papa Francisco e afirma que o mesmo se passa com muita gente: “Cada vez que Francisco fala, o mundo para. A sua voz é escutada com atenção pelos quer pelos acreditam, quer pelos que não acreditam”. Esta foi a principal razão para promover o colóquio e, como justificou Manuel Oliveira de Sousa, foram convidadas pessoas de vários quadrantes, crentes e não crentes, católicos e de outras confissões.
O padre Francisco Melo destacou três características do papa homónimo: um homem comum, de convicções, destemido. “Ele é igual a ele mesmo. Não mudou pelo facto de ser Papa. Compreendemos as suas frases, as suas atitudes, a sua maneira de estar. Mas é também um homem de convicções, sem ser fundamentalista. Está aberto aos outros e atento aos pormenores, mas é firme. E é destemido diante da própria morte. Fala com todos com naturalidade, é livre”. Interrogado sobre se o Papa está a refundar a Igreja, respondeu que o Papa quer é “ser fiel ao que é e deve ser”, à sua ligação a Jesus Cristo.
Pároco e vigário para a pastoral diocesana, P.e Francisco Melo disse ver no Papa “um de nós quando fala das paróquias”, “profundamente preocupado pela Igreja”, voltado para o essencial. “Se os cristãos forem de facto cristãos, o mundo tem de mudar”, rematou.
E como é que um cristão de uma tradição protestante (portanto, não aceita o primado do Bispo de Roma) vê Francisco? Eduardo Conde aprecia a atitude de proximidade de Francisco para com judeus e muçulmanos, e mesmo para com o líder da Comunhão Anglicana (com quem os metodistas têm relações privilegiadas), mas não crê que tenha havido sinais consistentes para o futuro em termos ecuménicos. A união dos cristãos ainda não está no horizonte. O pastor metodista valoriza mais a “dimensão social muito forte” de Francisco e a sua inserção na atualidade. “Ele está interessado em dar respostas às perguntas que as pessoas fazem e não a outras que ninguém faz”, afirma. Noutro momento, afirmou que o “Papa não fala teologuês, uma linguagem hermética, mas fala cheio de emoção, inclusividade, diz «homem e mulher», usa uma linguagem verdadeiramente evangélica”. Eduardo Conde apontou, por outro lado, uma incongruência dos católicos. Chamou-lhe “dimensão de sebastianismo”, ego que “não é possível nem desejável”. Referia-se ao excesso de esperanças neste Papa, típico de algum catolicismo, talvez por o pontificado de João Paulo II ter sido um “desastre” em termos ecuménicos, segundo o pastor, e por o de Bento XVI ter sido “brilhante” mas apenas na questão do diálogo entre teologia e ciência. Destacou por isso, algumas dimensões de Francisco que, afirmamos nós, têm bom acolhimento nos protestantes: referir-se a si próprio como “Bispo de Roma”, dar importância à sinodalidade e não à hierarquia, optar pela lógica do serviço e não do poder.
Falando como jovem e pelos jovens que conhece, Andreia Ramos destacou os empurrões que o Papa dá aos jovens: “«Ide sem medo para servir, vão para a rua» é o que o Papa nos diz”.
Jorge Castro vê no Papa um “aliado para uma certa maneira de educar”, uma maneira que tenha em conta as “referências intemporais”. Tendo sido várias vezes referido o carácter “normal” do Papa Francisco, frisou que é extraordinário assistir à “liderança de uma pessoa normal”.
J.P.F.