O poder do esparguete à bolonhesa na educação dos filhos

Para educar com coerência e firmeza é preciso, em primeiro lugar, proximidade. A ideia, com abundantes exemplos da sua experiência, foi desenvolvida por Laurinda Alves, na noite do dia 24 de Maio, perante cerca de duas centenas de pessoas que enchiam por completo o Salão D. João Evangelista, em Aveiro.

A jornalista, directora da revista Xis e, durante vários anos, responsável pela Pais & Filhos, publicação centrada nas questões da educação, defendeu que é “importante ouvir os filhos com o coração, perceber o que sentem e quem são”. Para tal, não se poder ter um “ar investigativo”, pelo que aconselhou algumas atitudes ou “truques, que funcionam bem”, como permitir que tenham o seu próprio espaço e dar-lhes a entender que é o seu território, batendo à porta antes de entrar.

A jornalista lembrou que, “a pedido, os filhos não contam como correu o dia, quando chegam da escola”. “Contam no tempo deles, quando querem, à maneira deles”, disse. “As ‘conversas impecáveis’ [as que os pais provocam em determinada fase do crescimento, a propósito das companhias, da sexualidade ou das saídas] não resultam”. E sugeriu uma estratégia que “nunca falha”, para conhecer os amigos dos filhos, em vez das tentativas infrutíferas de perguntar quem são, quem sãos os pais, o que fazem… A estratégia é: abrir a porta de casa aos amigos. “Fazem muita confusão, devastam o frigorífico, dão alguma despesa, mas não tanta quanto isso, porque faz-se um esparguete à bolonhesa – é barato e todos ficam satisfeitos”. O importante é que “abrir a porta de casa aos amigos é abrir o mundo dos nossos filhos”, concluiu.

Outra ideia muito sublinhada prendeu-se com a gestão do tempo para a família. A directora da revista Xis desmentiu a ideia-feita de que o que importa é a qualidade, gerada pelos ambientes de grande exigência profissional. “Não há qualidade, se não houver quantidade”, disse.

Com humildade, Laurinda Alves relativizou as suas próprias palavras, reconhecendo que é muito fácil ser educador ou pai/mãe de um filho que não é seu. “Temos óptimas soluções para os filhos dos outros. Somos imbatíveis. Mas só aprendemos a ser verdadeiros pais com os nossos filhos”.

No período de diálogo com a assembleia, a jornalista, mãe de um filho de 14 anos, defendeu que as crianças, até aos 10 anos, não devem ver os “Morangos com açúcar”, porque é série televisiva que “adultera valores e princípios”, “tão poderosa que transforma no mau sentido”. O mesmo se passa com os “reality shows”. Até aos 10 anos, as crianças não têm capacidade para perceber que aquilo é ficção. Depois dessa idade, já é difícil proibir.

A todos os pais e educadores, Laurinda Alves aconselhou a não viverem por antecipação os problemas dos filhos (“cada drama em seu dia”) e sugeriu que os educadores não se precipitem. “Temos de viver ao terceiro dia”, disse. Ou seja: dar espaço mental para fazer a análise mais correcta e ter a reacção mais adequada. Vale para a educação e é capaz de valer para muitos mais âmbitos da vida.

J.P.F.